A dona Raimunda da 306

Se você mora numa superquadra e não sabe o nome do seu jornaleiro (ou jornaleira), na boa, você não merece.

Desculpa ser assim categórica, mas é uma parada bíblica: a cada um cabe a sua responsabilidade. E você sabe o que significa morar numa superquadra: é fazer parte do projeto do plano piloto, em toda a utopia sonhada por Lúcio Costa – e tão pouco concretizada.

De tudo o que se planejou – clube, igreja, escola, escola-parque, comércio, tudo favorizando o convívio de vizinhança – quase nada sobrou. Um honroso conjunto de quadras-piloto na Asa Sul, outro meio mambembe na Asa Norte – e só.

Os jornaleiros são verdadeiros bastiões de resistência. Lá estão eles, há décadas, servindo de âncoras para as quadras, de ponto de encontro, lembrando tudo o que deveria ter sido, o que poderia ter sido, e não é. Ou que é um pouco – e é aí que você entra: a gente tem que cuidar desse pouco.

A dona Raimunda, da minha quadra, está ali há 41 anos. Viu tudo acontecer na 306, viu tudo acontecer em Brasília. Gosta de falar, rindo, que a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, precisa de um fonoaudiólogo: “a voz dela continua a mesma da menininha que vinha aqui comprar figurinha. Ela é uma mulher agora! E uma mulher ministra! Precisa cuidar disso”. Assim mesmo que ela sentencia – com a autoridade da jornaleira da quadra em que a ministra Izabella cresceu.

Me conta: eu podia morar na 306 sem saber dessa história? Não podia! Agora vai lá. Vai na sua banca e descobre as histórias de uma Brasília que só seu jornaleiro conhece.

Bora?
Na banca de revista da sua quadra – ou da quadra dos outros, porque quem não tem cão caça com gato.
Seg-sáb, das 8h-18h.  Dom, 8h-13h.

5 respostas em “A dona Raimunda da 306

  1. Adorei o tema! Tenho pra mim que as bancas de jornais e revistas de Brasília têm um clima que se aproxima do aconchego das praças de outras cidades. Durante minha infância e adolescência na 204 sul, eu VIVIA na banca do seu Aquino, pelos mais diferentes motivos: revistinhas do Maurício de Souza, figurinhas do “Amar é” e afins, qualquer coisa no mundo sobre os Menudos, fascículos sobre animais (daquele tipo que depois a gente transformava em enciclopédia – será que ainda existe isso?) e muitas outras possibilidades de alegria. Quando mudamos para a 208 norte, minha maior frustração é que não tinha banca de jornal lá. Até hoje não tem. Parece que por causa de assaltos. Enfim, adorei o post, deu para perceber pela nostalgia que me atacou agora!!

  2. Eu acho um puta preconceito falar sobre a voz de criança da ministra. Entendo que o discurso é sobre a comunidade, mas peraí, valorizar como um elemento identitário da cidade é totalmente repulsivo e medíocre. Mil desculpas D. Raimunda, com todo o respeito, mas seu discurso não me serve.

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