A cidade afetiva

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Brasília é tão jovem que talvez nem inspire isso, mas eu vivo uma relação afetiva séria com todos os lugares onde vivi. Voltar a um velho prédio, a uma antiga casa, à escola onde estudei, é um pouco visitar quem eu fui.

Você já foi no bloco da sua infância? Já conseguiu driblar o porteiro e subir lá no seu andar? Pois devia. Mil coisas me atravessaram nessa experiência regressiva. O corredor parecia ter encolhido, as paredes da minha memória certamente eram tão mais largas… Como cabiam patins, bicicletas e tendas naqueles poucos metros quadrados?

Menos divertido foi voltar à velha escola: ah, capitalismo… Com que velocidade você transformou nossos bucólicos pátios em prédios modernos, em mais salas de aula, em ainda maiores quadras de esportes…

Não é bonito pensar em quantas cidades afetivas cabem numa mesma cidade? Vivia até outro dia numa esquina afetiva dos meus pais sem ter a menor ideia disso.

Eles vieram pro café e se preparavam para comprar pão aqui perto quando perguntei esperando o óbvio: “Vão na Boulangerie?”. “Não”, eles respoderam, “na Casa do Pão”. E começaram a contar uma história linda da época em que ela trabalhava na Biblioteca Demonstrativa e ele passava todo dia, menos interessado nos livros do que na mocinha do setor de empréstimos.

E eu que nem sabia que a padoca da W3 contava tantos anos de forno.

Bora?
E você, hein? Que lembrança Brasília te convida a visitar?

Um lugar gostoso e fora do trajeto

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Já falei aqui da minha dificuldade de sair da rotina casa-tesourinha-trabalho, e como o Lago Sul não está nesse trajeto, essa é uma das regiões da cidade que eu menos frequento. Então acabo demorando pra descobrir lugares escondidos (pra mim) como o Café das 5, na comercial da QI 5.

O espaço é gostoso e o cardápio, idem. Sanduíches gourmet, pequenas gostosuras, bons queijos, bons vinhos e bruschettas ótimas – provei a do Bosque e quero voltar pra comer de novo: cogumelos, queijo de cabra, raspas de limão siciliano, parmesão e azeite trufado. Hein? Pra uma fome de verdade, ainda tem risotos, massas, peixes. E tudo parece promissor.

O café faz parte do Espaço Maria Tereza, que reúne ainda um restaurante italiano e um bar (Bottarga) e uma loja de móveis e decoração. Dá pra fazer várias coisas num lugar só.

* Nota – alertada pela leitora Débora de que o lugar está em reforma, liguei lá e fui informada de que o café está funcionamento normalmente na parte interna. A reforma na varanda deve durar uma semana.

Bora?
Café das 5
Lago Sul, comercial da QI 5, conjunto 9, bloco D
Ter a dom, 15h à 1h
Tel. 3248-4828

Artesanalmente francês, diretamente do Guará

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Quando você mora fora e começa a conviver com os hábitos locais, há aqueles com que você se identifica de cara, aqueles com as quais você se acostuma com o passar do tempo e aqueles outros que você jura que não vai incorporar nunca. Eu era assim com as charcuteries.

É assim que os franceses chamam toda suas receitas a base de embutidos – que por lá são tão famosas e celebradas quanto os mundialmente conhecidos queijos. Eu demorei longos anos para me entregar a esses patês feitos de miúdos, gordura e sabe-se lá o que mais dentro. Durante muito tempo resisti às ofertas dos pratos feíssimos que desfilavam pela mesa na hora da entrada: terrines, patês, rillettes. Até que… claro, me apaixonei.

Desde que voltei, andava meio órfã dessa parte da culinária francesa. Ao contrário dos pães e sobremesas, assuntos em que o mercado brasiliense não nos deixa na mão, as charcuteries exigem algo de artesanal, de savoir-faire, que me parecia quase impossível de se encontrar por aqui.

Ledo engano. Outro dia, na casa de amigos, esbarrei no profissionalismo e na simpatia da proposta do Realejo, invenção e obra do artesão charcutier Eduardo Sedelmaier.

Ele mesmo prepara cada um dos patês de aves confitadas com pistache que entrega na sua casa dentro de uma mini-marmita toda charmosa. O sabor não fica atrás dos melhores confits que provei na França. No cardápio, há ainda o patê campestre, coalhada seca e uma geleia de tangerina do cerrado que juram ser um pecado ambulante.

Aviso aos acostumados com os enlatados: patê francês não é pastinha homogênea de supermercado, não. É comida de verdade. Tudo bem se você torcer o nariz por longos anos ainda. Sobra mais pra gente.

Bora?
O Realejo
Patês (R$ 35 e R$ 24), coalhada seca de leite de cabra (R$ 18), geleia de tangerina (R$ 18)
Pedidos pelo telefone 9974-3899

Vício em reclamar de Brasília

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Estava eu de férias, andando em uma rua qualquer do Rio de Janeiro, quando escuto alguém xingando Brasília. A voz veio de um bar em Ipanema, mas não foi dita necessariamente por um carioca, pode ter vindo inclusive de um brasiliense – o que não seria incomum, seria?

Andei alguns quarteirões até me livrar da vontade de voltar naquele bar e responder o xingamento. Óbvio que não voltei, mas depois fiquei me questionando por que fico tão incomodada quando alguém critica Brasília, seja qual for o tema da crítica. É um incômodo que às vezes supera o razoável. Problema de quem não gosta, o que eu tenho a ver com isso, me diz?

Freud deve explicar melhor do que eu, mas tenho a impressão de que o brasiliense, de poucos anos pra cá, está mais aguerrido na defesa da cidade. Estufa o peito com vontade e não leva desaforo pra casa. Talvez a gente esteja passando por um movimento de autoafirmação, típico de qualquer grupo social que levou pedrada a vida inteira e, de repente, parte pra reação.

Em algum momento, essa reação assume um tom desproporcional à crítica, o que pra mim é resultado de algo que enlouquece qualquer um mesmo: crescer ouvindo as mesmas críticas generalistas – e injustas, na maior parte – de quem assume a reclamação como esporte e o preconceito como verdade.

Tem o preconceito de quem nunca pisou aqui (ou pisou só num gabinete e voltou pro aeroporto) e costuma ter muita opinião sobre o que não conhece. Faz isso repetindo bordões, frases feitas e piadas prontas que escuta desde a infância. E só consegue enaltecer sua cidade preferida depreciando outra.

Tem também o preconceito do morador de Brasília, brasiliense ou não, diagnosticado com vício em reclamação. Aquele que perpetua as frases feitas em uma eterna insatisfação com a cidade. O irônico é que essa pessoa normalmente tem algum motivo muito bom pra morar aqui. Mas esse motivo, apesar de ser tão bom a ponto de mantê-la na cidade, não consegue ser foco de atenção. O foco são sempre os defeitos.

Sobre o preconceito de quem não conhece a cidade, nem pretende, recomendo a leitura de um texto da Carol no blog Desenho de Vida Real, sobre uma matéria da revista Mundo Estranho com o título “E se Brasília não tivesse sido construída?”. É só uma amostra de como a nossa cidade costuma ser culpada pelos crimes mais bizarros – o mais clássico é o de abrigar os políticos que, vejam só, foram escolhidos pelo país inteiro.

E sobre os que moram aqui e não param de reclamar… Só queria dizer que não sou a Pollyanna, não vivo rodopiando pelo Eixão feliz da vida. Reclamar faz parte, é claro, o problema é o vício na reclamação. A insatisfação permanente é infeliz, mas extremamente cômoda.

Brasília tem muitas qualidades e muitos defeitos, como todas as cidades que eu conheço. A única diferença são as prioridades de quem vê a cidade. Dentro do que é mais importante na sua vida, neste momento, uma ou outra cidade vai te atender melhor, vai te satisfazer mais. Os defeitos de Brasília certamente são diferentes dos defeitos do Rio, de Porto Alegre, de Recife, mas todos têm os seus. O que você prioriza?

Como todo tipo de relacionamento, o nosso com a cidade também cai na rotina, também vira um tédio. Às vezes é bom dar um tempo e se afastar pra enxergar melhor. Se o problema está no seu olhar, que você consiga mudar sua forma de ver a cidade. Se o problema está nas suas prioridades, e se Brasília não atende a elas, que você consiga se mexer e procure alternativas. A culpa não é da cidade, é do que você faz com ela.

Desculpem a rabugice, acho que bateu uma depressão pós-férias. Mas sempre que viajo percebo como é bom sair e como é bom voltar pra casa. E penso que, na hora em que não for bom voltar, vai ser mais corajoso agir do que reclamar.

Foto: Coletivo Transverso.

Um povo que não tem sua cultura vai viver mendigando a dos outros

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Seu Teodoro morreu no ano passado, pouco antes da folia que ele preparava caprichosamente completar 49 anos. Hoje, sem ele, a folia completa meio século de existência, celebrando o legado da alegria que nem essa ausência é capaz de impedir.

Como todo ano, o desfile do boi acontece às 19h – seguido de uma infinidade de shows com pegada popular, que promete arrebanhar multidões no Centro de Tradições Populares de Sobradinho. Este ano tem até a neo-diva brasiliense Ellen Oléria.

Talvez Asas do Forró não seja exatamente o que você tem em mente para o seu final de semana, mas mesmo assim considere uma visita à mais antiga festa popular de Brasília. O maranhense Seu Teodoro trouxe a tradição do bumba-meu-boi para a capital em 1963 e por quase cinco décadas conduziu a festa de cores e ritmos, mobilizando toda a região. É tanta energia que às vezes nem parece que a gente está aqui mesmo.

Mas está. O boi de seu Teodoro é Brasília. É manifestação cultural popular tipicamente nossa. Nas palavras do mestre, que minha amiga Cris me trouxe de presente:

“Tem muita criança neste país que não sabe o que é um bumba-meu-boi, não sabe o que é uma congada, não sabe o que é uma catira, não sabe o que é capoeira, não sabe o que é um marujo, não sabe o que é um reisado, não sabe o que é uma comédia, não sabe o que é um tambor de crioula; mas ele sabe o que é uma novela, ele sabe o que é um rock, ele sabe o que é um funk, ele sabe o que é um reggae, porque é isso que ele vê na televisão. Acho que é importante porque é o nosso povo; é o nosso país! Nós não temos outro! Nós estamos nos esquecendo do que é nosso, mas amanhã isso pode nos custar muito caro. Ah! Porque um povo que não tem sua cultura, vai viver mendigando a dos outros”

Bora?
Boi de Seu Teodoro em Sobradinho
Hoje e amanhã, 25 e 26/01, a partir das 16h
Centro de Tradições Populares, Quadra 15, Área Especial – Sobradinho
Programação completa aqui.

Faz um desconto?

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É tanto que meu marido tem vergonha de mim. Sou a maior pechincheira da paróquia. Quando eu começo ele até sai de perto.

Tenho os argumentos perfeitos: isso é moda que passa rápido, não dá para investir tanto; estou quebrada esse mês; eu compro sempre aqui; olha, tá com esse micro-defeitinho aqui; e, na minha melhor de todas, eu reconheço seu trabalho, realmente é de muita qualidade, mas será que não dá pra fazer um descontinho pra eu virar cliente?!! – isso, claro, seguido de um sorriso bem meigo. Quase sempre funciona.

Pois este final de semana nós, os pechincheiros, temos uma prova de fogo. O Mercado Cobogó inteiro vai estar pechinchável. Não é desconto, é pechincha mesmo. Os criadores levam as peças com os preços habituais, o desconto fica por conta do nosso charme.

Mas a coisa é pra valer: os donos da loja já alertaram os criadores para não levar peças em que não possam dar bons descontos. Então se você sair de lá com o preço da etiqueta a culpa é mesmo toda sua.

Prepare a sua lábia e nos encontramos lá.

Bora?
Dia da Pechincha no Mercado Cobogó
Sábado e domingo, 26 e 27/01, das 10h às 19h
SCRN 704/705 bloco E lojas 51/56
Telefone: 3039 6333

Notícia perfeita pra hora da fome

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Passadinha rápida para dividir com vocês o que minha amiga Sibele acabou de me lembrar: estamos em plena Restaurant Week.

Todo mundo concorda que a gastronomia se tornou um capítulo especial no cardápio da diversão brasiliense. E todo mundo concorda também que está cada dia mais difícil aproveitar dela, porque os preços são impossíveis.

Aí está – uma seleção de ótimos restaurantes, com menu de entrada, prato e sobremesa a preços tabelados: R$ 34,90 no almoço, R$ 47,90 no jantar.

Não sabe nem por onde começar, com tanto prato bom? Nem eu, amigo, nem eu.

Bora?
Brasília Restaurant Week
Até 3 de fevereiro, com opções de almoço e jantar.
Clique aqui para ver todos os restaurantes participantes.