Vício em reclamar de Brasília

poesia

Estava eu de férias, andando em uma rua qualquer do Rio de Janeiro, quando escuto alguém xingando Brasília. A voz veio de um bar em Ipanema, mas não foi dita necessariamente por um carioca, pode ter vindo inclusive de um brasiliense – o que não seria incomum, seria?

Andei alguns quarteirões até me livrar da vontade de voltar naquele bar e responder o xingamento. Óbvio que não voltei, mas depois fiquei me questionando por que fico tão incomodada quando alguém critica Brasília, seja qual for o tema da crítica. É um incômodo que às vezes supera o razoável. Problema de quem não gosta, o que eu tenho a ver com isso, me diz?

Freud deve explicar melhor do que eu, mas tenho a impressão de que o brasiliense, de poucos anos pra cá, está mais aguerrido na defesa da cidade. Estufa o peito com vontade e não leva desaforo pra casa. Talvez a gente esteja passando por um movimento de autoafirmação, típico de qualquer grupo social que levou pedrada a vida inteira e, de repente, parte pra reação.

Em algum momento, essa reação assume um tom desproporcional à crítica, o que pra mim é resultado de algo que enlouquece qualquer um mesmo: crescer ouvindo as mesmas críticas generalistas – e injustas, na maior parte – de quem assume a reclamação como esporte e o preconceito como verdade.

Tem o preconceito de quem nunca pisou aqui (ou pisou só num gabinete e voltou pro aeroporto) e costuma ter muita opinião sobre o que não conhece. Faz isso repetindo bordões, frases feitas e piadas prontas que escuta desde a infância. E só consegue enaltecer sua cidade preferida depreciando outra.

Tem também o preconceito do morador de Brasília, brasiliense ou não, diagnosticado com vício em reclamação. Aquele que perpetua as frases feitas em uma eterna insatisfação com a cidade. O irônico é que essa pessoa normalmente tem algum motivo muito bom pra morar aqui. Mas esse motivo, apesar de ser tão bom a ponto de mantê-la na cidade, não consegue ser foco de atenção. O foco são sempre os defeitos.

Sobre o preconceito de quem não conhece a cidade, nem pretende, recomendo a leitura de um texto da Carol no blog Desenho de Vida Real, sobre uma matéria da revista Mundo Estranho com o título “E se Brasília não tivesse sido construída?”. É só uma amostra de como a nossa cidade costuma ser culpada pelos crimes mais bizarros – o mais clássico é o de abrigar os políticos que, vejam só, foram escolhidos pelo país inteiro.

E sobre os que moram aqui e não param de reclamar… Só queria dizer que não sou a Pollyanna, não vivo rodopiando pelo Eixão feliz da vida. Reclamar faz parte, é claro, o problema é o vício na reclamação. A insatisfação permanente é infeliz, mas extremamente cômoda.

Brasília tem muitas qualidades e muitos defeitos, como todas as cidades que eu conheço. A única diferença são as prioridades de quem vê a cidade. Dentro do que é mais importante na sua vida, neste momento, uma ou outra cidade vai te atender melhor, vai te satisfazer mais. Os defeitos de Brasília certamente são diferentes dos defeitos do Rio, de Porto Alegre, de Recife, mas todos têm os seus. O que você prioriza?

Como todo tipo de relacionamento, o nosso com a cidade também cai na rotina, também vira um tédio. Às vezes é bom dar um tempo e se afastar pra enxergar melhor. Se o problema está no seu olhar, que você consiga mudar sua forma de ver a cidade. Se o problema está nas suas prioridades, e se Brasília não atende a elas, que você consiga se mexer e procure alternativas. A culpa não é da cidade, é do que você faz com ela.

Desculpem a rabugice, acho que bateu uma depressão pós-férias. Mas sempre que viajo percebo como é bom sair e como é bom voltar pra casa. E penso que, na hora em que não for bom voltar, vai ser mais corajoso agir do que reclamar.

Foto: Coletivo Transverso.

49 respostas em “Vício em reclamar de Brasília

  1. Eu, que estou em sp ha quatro anos e na sexta que vem retorno a bsb, entendo quem nao gosta de brasilia. Mas o que eu mais admiro é o fato de brasilia despertar algum sentimento. Eu gosto muito, defendo ate onde da, mas ta cada vez mais dificil…

  2. Sou paulista de nascença (0 – 19 anos), mineiro de coração (20-33) e brasiliense por opção (34-43). Detestava Brasília, até entender que o problema não são os brasilienses, mas os brasileiros que escolhem seu próprio lixo e enviam pra cá. Nestes 10 anos de Brasília, aprendi a viver na cidade, a curtir a chuva de invernada e ir pras cachoeiras da região na seca braba. Cidade Plural, de gente plural…. isso sim é Capital!!!!

  3. Dani,
    Adorei a matéria.
    Como sou brasiliense por opção desde 1972 adoro Brasília com suas mazelas e seus encantos.
    Adoro voltar e me sentir em casa.
    Concordo com o Wagner Vilella, Brasília é uma cidade Plural.!!!!

  4. Adorei, eu como brasiliense também detesto ouvir os reclamões, seja aqui ou em qualquer outro lugar. Minha cidade é linda, é limpa, tem um céu azul, a lua brilha nela toda e tem verde, muito verde… Além disso, onde mais tem os postes de luz mais lindos do país?????

  5. “não vivo rodopiando pelo Eixão feliz da vida” foi icônico, gargalhei sozinho aqui!
    Belíssimo texto Dani! Disse tudo!
    Sou nativo e um ferrenho defensor da cidade, compro a briga mesmo, sabem porque? Porque a cidade precisa disso, porque as críticas são constantes, reiteradas e em 90% das vezes sem entendimento do que Brasília é.
    Sugiro a leitura de um belo texto de Clarice Lispector para tentar entender um pouco mais esse espanto, estranheza e mistério que é Brasília
    http://claricelispector.blogspot.com.br/2009/05/brasilia.html

  6. Acontece em praticamente todas cidades de interior. O brasiliense tem um dilema com essas questões de ‘qualidade da cidade”, pois as credenciais da cidade (capital, Juscelino e blablableh) a colocam num patamar alto, o que constantemente leva para um comparativo com as grandes cidades do Brasil. Muitos se seguram no argumento da cidade bonita, monumental, do céu azul…uma beleza estatal, o negócio é bonito, mas não é o tipo de qualidade que se sustenta. Eu prefiro dizer que é uma cidade calma (como no interior) e com uma certa infra-estrutura (mini-metrô, parques, universidade) que proporciona interação com outras culturas (nordestinos e internacionais). Por mais que seja uma arquitettura “modernitizada”, seus habitantes tem pouca relação com isso – malzaê. Em outras cidades, os monumentos tem uma história carregada, o valor é outro, e não só a beleza enebriante. Por ser uma cidade ‘júnior’, talvez role um complexo de inferioridade histórica, onde a população se sinta obrigada a falar no estilo time de futebol (WHO’S DA BEST HUH?). e catanduva? catalão? sacramento? formiga? taubaté? sugiro um rolê para todo e qualquer ser de bsb, numa cidade com esquinas e calçadas para sentir a vibe. abs

  7. As críticas dos não brasilienses devem ser descartadas, pois estes na maioria das vezes se baseiam em generalizações etc. Porém, a galera que mora no DF, não só no Plano Piloto rico, deveria era reclamar mais pq esse pedaço do país concentra a maior riqueza e a maior pobreza do nosso país. Pagamos mais impostos do que ninguém e nem sequer temos um transporte decente. Tente sair da asa norte e ir pra asa sul sem carro em pleno domingo! As reclamações são justas e não é por vício; é por impaciência, por sermos constantemente negligenciados e pela falta de respeito constante ao cidadão. Tem que reclamar sim e protestar e sair da bolha em que os brasilienses vivem, crendo ser esta a cidade mais encantadora do mundo e com melhor IDH do planeta.

    • Concordo plenamente contigo! Brasilia não tem um transporte público digno, tudo é caro (comer, morar, estudar, se divertir, etc); as pessoas jogam lixo no chão e pela janela do ônibus; os monumentos públicos foram deixados de lado pelo poder público, com viadutos sujos e pichados; motoristas de ônibus mal educados. Brasilia com certeza tem suas qualidades, mas não venham os riquinhos (que vivem numa bolha) dizer
      que Brasilia é maravilhosa, porque está muito longe de ser! E tem que reclamar sim! Eu até acho que tá faltando reclamação! Como pode o povo passar necessidade e não reclamar disso? Não entendo!

  8. Já pensei sobre isso também. Moro na Alemanha e dia desses vi um documentário sobre Brasília na TV, totalmente insensível. Mostrou a nossa arquitetura com um tom de estranheza, com um quê de frieza e só. Não mostrou as pessoas, a paisagem ou as opções culturais. Ficou no básico. Depois, refletindo, acho que me tornei uma defensora assim da cidade porque somos as pimeiras gerações dessa cidade. Me sinto anulada quando, de alguma forma, anulam a nossa recente cultura brasiliense. Acho que temos essa urgência em nos mostrar para o país, mostrar quem somos e as coisas que estamos criando nas últimas décadas. Essa mistura bacana, sem vergonha de esconder que somos um mix, um pouco de cada. Porque o Brasil no século passado tinha uma urgência parecida em mostrar a sua mistura de índios, áfrica, ásia e europa. Agora que criamos uma identidade própria, muito rica por sinal, temos essa coisa de querermos mostrar já!!

  9. Também sou um brasiliense migrado. Ao longo desses quase quatro anos que estou fora, dividos quase que proporcionalmente entre Londres e Rio de Janeiro, não houve um dia em que não pensasse na minha terra natal. O afastamento, porém, serviu para que eu desenvolvesse uma crítica mais nuançada sobre a cidade. Também fico feliz quando vejo movimentos de jovens politizados (não políticos!) e sensíveis se organizando para pensar e defender nossa cidade. Gostei e concordei com o texto. Aliás, gosto muito deste blog. Abaixo, deixo aos meus conterrâneos (por nascimento ou adoção) uma linda referência a Brasília que o talentoso Vladimir Safatle (USP; Folha; Carta Capital) fez há pouco tempo, quando escreveu texto em homenagem ao mestre Niemeyer. (está em:http://www.cartacapital.com.br/sociedade/oscar-niemeyer/?autor=961)
    “[…] Vivi em Brasília durante toda a minha infância e, por essa razão, sempre quis um dia agradecer a Oscar Niemeyer pela infância que ele, involuntariamente, me deu. Uma infância sem medo, sem grades, sem muros. Infância de quem cresce diante da imensidão de espaços vazios, capaz de acolher, sem violência, o vazio silencioso da natureza do cerrado. Um espaço de olhares desimpedidos, onde os elevadores davam diretamente para as ruas. Um tempo onde aprendi a beleza da igualdade e o prazer de ver todo espaço como um espaço comum. ”
    Abs a todos!

  10. Excelente texto!
    E excelentes comentários também!
    Eu nasci aqui e adoro a cidade! Também fico indignada quando colocam Brasília como sinônimo de corrupção. Oras, político bandido vem de todos os cantos do país! E os daqui têm todo o “suporte”, por assim dizer, para “bandidar” por aí.
    Mas também concordo que a cidade (e me refiro, nesse sentido, a todo o DF, e não só ao Plano Piloto) anda cada vez mais abandonada. É um tremendo cliché, mas aqui, como capital da República, as coisas deveriam funcionar, e bem! Deveriam ser um modelo para as outras cidades. O asfalto deveria ser bom, as escolas deveriam ser excelentes (e já foram, um dia…), os hospitais deveriam ser suficientes para todos, etc, etc, etc… mas daí tem o abandonado Entorno, tem o crescimento desordenado (e os currais eleitorais, que muito vêm a calhar aos políticos citados ali em cima), tem a população desinformada e mal educada…
    Apesar de tudo, amo esse quadradinho aqui!

  11. A idéia de Brasília como cidade de corruptos é lugar-comum, não vale a pena nem argumentar com pessoas que levantam essa lebre, uma vez que o Brasil inteiro manda seus piores representantes para cá, e a cidade acaba levando a fama de um problema nacional, e infelizmente, crônico.

    Agora, em contrapartida, penso que já não dá mais para a nossa cidade ficar se sustentando nos “cânones” de sua fundação : Niemeyer, Lucio Costa, Athos, JK…beleza, foram pessoas geniais que conceberam coisas legais, mas e daí? E agora? O que estamos fazendo com esse legado ? Estamos aproveitando ? Estamos honrando ?

    Eu penso que não. Brasília tem problemas estruturais seríssimos, que não há governo capaz de solucionar, pois são problemas no DNA de sua própria concepção, o projeto futurista da capital perdeu a validade, e agora cabe a nós – brasilienses de nascença ou não – recriá-la.

  12. Sou igualzinho você descreveu ali no texto: apaixonado pela cidade, defensor ferrenho e às vezes exagerado. A exemplo de você, o que mais me tira do sério é ouvir críticas lugar-comum, generalidades de quem vem pra cá, tem pouca ou nenhuma vida social, e fica só esperando o próximo fim de semana ou feriado pra voltar pra sua cidade natal, cair na farra com amigos e família e dizer que “em Brasilia nao tem nada pra fazer e as ppessoas são antipaticas”.

    Forasteiros, entendam: aqui NÃÓ é igual às outras cidades, onde voceê encontra pessoas na rua, onde faz um percurso de cinquenta minutos a pé atravesando ruas, avenidas cheias de comércio e vida. Aqui também não é uma cidade de vinte milhões de habitantes onde existem restaurantes, baladas e espetáculos culturais internacionais de segunda a segunda, sem hora pra acabar. Aqui não é um lugar onde as pessoas falam inglês, onde existem milhares de gringos nas ruas. Aqui não tem o Maracanã, não tem show do U2 e do Paul McCartney todo ano (mas isso vai mudar) e aqui também não tem praia.

    Mas aqui é a cidade onde você encontra tranquilidade, onde tem um céu maravihoso, onde tem paz, onde ainda (cada vez menos, é verdade) dá pra almçar em casa e até mesmo fazer esportes no intervalo do expediente. Aqui é a cidade onde existem setores, onde existem ruas com comércio concentrado. Rua das noivas, rua das farmácias, das elétricas, dos restaurantes, dos computadores. Sem falar nas milhares de feiras bem legais que existem nas cidades-satélite. Aqui tem um lago espetacular, com orlas e alguma estrutura onde voce ja pode curtir a beleza da cidade com calma e se divertir num fim de semana. Aqui tem sempre uma coisinha ou ourta pra fazer nas noites. Aqui não tem o Galo da Madrugada nem o Bola Preta, mas tem o Suvaco de Asa. Aqui não tem o Rock In rio, nem o Lolapallooza, mas tem o Porão do Rock e cada vez mais shows legais.

    Aqui, sobretudo, tem muita gente fina, humillde, trabalhadora e, sobretudo, que tem uma vida traqnuila. Se a gente nao tem o mesmo ritmo de paulistas que saem do trabalho às 21h30 todos os dias (´muitas vezes só pra fugir do engarrafamento), é porque somos eficientes e prezamos as nossas vidas pessoais acima de tudo.

    Aqui tem político corrupto, senador, deputado e governador cassado. Todos nascidos fora de Brasilia, sem exceção. todos importados de outros estados. Temos uma câmara legislativa ridicula, que não deveria existir? Sim, mas onde isso é diferente?

    GRaças a Deus, Dani, eu conheço muita gente que veio pra cá e não troca a cidade por nada. Eu sou preconceituoso às avessas mesmo. Acho muito dificil alguma dessas críticas maldosas que fazem de Brasilia ter vindo de gente que passou muito tempo aqui e viveu e conhece a cidade de verdade. É muito mais uma defesa prévia, uma rejeição preestabelecida ao lugar onde vão passar uma fase de sua vida (“para ganhar dinheiro”) e depois voltarem com a sanidade mental mais equilibrada para suas casas.

    Dito isso, confesso que não sei brincar. Vou sempre bater boca, defender, até de forma irracional, quem detona a minha cidade de graça e de forma jocosa e ignorante. Nem que tenha que me desgastar por isso.

    Amo essa cidade, parebéns pelo texto e um beijo!!!!

  13. “O irônico é que essa pessoa normalmente tem algum motivo muito bom pra morar aqui. Mas esse motivo, apesar de ser tão bom a ponto de mantê-la na cidade, não consegue ser foco de atenção.”

    Brasília paga os melhores salários e remuneração por serviço no país. Isso é bom para quem recebe, mas ruim para quem paga ou precisa pagar. Ou seja, vem “fácil”, vai “fácil”. Por isso, tudo aqui é caro e mal feito, somando os sérios problemas de ocupação do espaço urbano (já observou como só tem espaço vazio aqui, mas o m² é um dos mais caros do país? Uma kitnet de 28m² no subsolo sem janelas vale 130 mil reais) e monopólios comerciais locais. Isso não é preconceito, é minha sincera observação (válida especialmente a tudo dentro do plano piloto e seus arredores mais próximos). Ou seja, é uma cidade de se fazer dinheiro, para vê-lo render em outros lugares. Ainda, a proximidade do governo federal faz com que todo o “core” do aparato burocrático do país esteja aqui, com seus empregos e sua renda. Brasília possui economia pífia se falando em produtividade se comparada a outros centros urbanos. Isso gera uma lógica de rapina que é inerente à formação do Brasil, vir para cá e fazer vida (e não são só nordestinos ou gente pobre. Filhos da classe média de outras localidades, como Goiás, RJ, e MG são muito comuns), mas sempre mantendo um sonho distante de sair daqui. A economia local é fechada e não há espaço para empreendedorismo devido aos custos de qualquer coisa, que só são pagáveis por empresas longamente estabelecidas ou multinacionais que abrem franquias como água por aqui, e cobram os olhos da cara por comida de isopor.,

    Se essa é a terra que você se criou, é esperado que a defenda incondicionalmente, acho até fofinho. O discurso Ame-a ou Deixe-a, não confere fatos que buscam provar que os reclamões estejam de fato, errados. Olhamos sim, para o que nos mantém aqui. Emprego público, boa renda e a Universidade de Brasília. Nem um pouco irônico.

    • Engraçado como alguns argumentos para reclamar de Brasília mais ou menos se repetem para defendê-la. Para uns, o excesso de espaço é uma vantagem, para outros é causa de um problema econômico sério. Há quem goste que se pague altos salários por aqui, há quem se lamente que eles logo vão embora no alto custo de vida.

      Essa contradição só pode siginficar que, se Brasília é uma cidade ruim, ela é de fato uma cidade muito ruim. Ou então, significa que os apaixonados não limitam elogios, mesmo que beirem o irracional, e os reclamões não medem alfinetadas…

      O fato é que uma cidade muito diferente só pode ter vantagens e problemas muito diferentes. O preço alto do metro quadrado em um lugar com muito espaço aberto pode ser totalmente racional. Afinal, é espaço inútil ou área verde? É desperdício ou qualidade de vida? O paulistano se dispõe a pagar o mesmo preço (não se iluda, SP é tão caro quanto BSB, se não for mais em algumas coisas) simplesmente porque aquele metro quadrado está em Sampa e não em Brasília. Aquele metro pode até ter mais estrutura, mas será que esse paulistano não preferia desembolsar para ter área verde? Desejar que Brasília seja São Paulo é tão impossível como desejar que São Paulo tenha a área verde de Brasília por habitante e não deixe de ser São Paulo.

      Alguém podia alegrar-se por morar no Rio por causa da praia; outro podia gostar de Brasília mais de BH porque não precisa subir morro. São coisas incomparáveis. Seria no mínimo estranho dizer que a vantagem de Brasília é que não há maresia. As vantagens são coisas agradáveis que há aqui, e coisas agradáveis estão em todos os lugares, inclusive empregos públicos. A questão não é “os incomodados que se retirem”, mas os incomodados que façam alguma coisa, o que pode ser até se retirar. De fato, me incomodo com muita coisa. Mas será que só reclamo?

      http://www.facebook.com/NossaAsaNorte

    • eu cheguei há seis anos e meio, gosto daqui e não tenho interesse pra voltar pra minha cidade natal (bh), mas acho que consigo entender de onde vem uma parte da antipatia de alguns “forasteiros”. um dos comentaristas acima disse que alguns críticos tem pouca ou nenhuma vida social, mas acredito ser difícil iniciar essa vida social em brasília, uma cidade cara, onde tudo é longe e é difícil a socialização casual. ao contrário das pessoas nascidas aqui e que já tem vários círculos sociais, esse pessoal vindo de fora encontra dificuldade para fazer amigos, descobrir coisas novas e legais e, no fim das contas, se encontrar na cidade.

      dizem que o brasiliense é chato, antipático. eu discordo, acho uma generalização boba, mas me parece que as pessoas daqui são um pouco mais… insulares. amigos nascidos aqui compartilham dessa opinião.

      acredito que uma mudança tem que ser encarada com o coração mais aberto possível (e sei muito bem que tem muita gente que vem já preparada pra odiar, sem dar chance pra nova cidade), mas vejo pessoas que vem com essa atitude positiva e mesmo assim se frustram pela dificuldade de se inserir aqui e conseguir ver brasília da forma que fez tanta gente se apaixonar pelo quadrado.

  14. Uma vez eu estava viajando pela Bahia, na Chapada Diamantina, e após uma longa caminhada, sentando num barzinho, a mesa ao lado puxa papo com a nossa e, ao nos descobrirem de Brasília, um cara fala, já aparentemente alterado pela cerveja “Brasília só tem bandido e ladrão”. Pensei no que responder, uma vez que esse é o tipo de comentário que me tira do sério. Não resisti e soltei “é verdade… Brasília tem muitos ladrões e bandidos… poucos deles nascidos em Brasília… a grande maioria enviados pelos estados que elegem ladrões e bandidos… por exemplo, a Bahia… só elege bandidos e ladrões e os mandam pra Brasília… a começar pelo bandido-mor, ACM”. Só não fui assassinado com uma garrafada porque a turma do rapaz o segurou… mas foi uma deliciosa sensação 😉

  15. Acho que o mais importante é não ignorar nem as qualidades, nem os defeitos.Tem diversas coisas de que não gosto aqui, mas sei e vejo que existe muita movimentação de transformação, vários grupos de pessoas buscando modificar o incômodo dos reclamões. Porque é muitas vezes nosso incômodo tbm.

    Brasília é uma cidade nova, nascida de cesárea – planejada e no tempo do doutor. Então, características urbanas que são incorporadas com o tempo em cidades “normais”, foram forçosamente incluídas no nosso espaço. Então, paciência, meu povo. E perseverança.

  16. alguém lá no alto mencionou o lance da vibe das outras cidades.
    é verdade que as energias das cidades são diferentes.
    você chega no Rio e sente que está lá. aquele calor, a vista linda da z o n a s u l.
    também ilhados,
    os cariocas do sul do resto da cidade –
    cheia de problemas.

    no Recife, viajamos no tempo ao subir as ladeiras de Oh Linda.
    linda!
    saindo de Boa Viagem, o lixo, os ratos e a pobreza latente, começam a aparecer.
    as irmãs Salvador-Pelourinho, na mesma linha.
    São Paulo, a própria Babilônia. em c h a m a s !
    Paris, idem. Londres. Nova York.
    morei fora e vi defeitos que vejo aqui. e vice-versa.
    cidade, meus caros, é assim.

    qual é, gente! a maior parte das cidades do mundo é assim.
    o post já disse tudo, nem precisaríamos de todas essas emendas!:
    “Brasília tem muitas qualidades e muitos defeitos, como todas as cidades que eu conheço. A única diferença são as prioridades de quem vê a cidade. Dentro do que é mais importante na sua vida, neste momento, uma ou outra cidade vai te atender melhor, vai te satisfazer mais. Os defeitos de Brasília certamente são diferentes dos defeitos do Rio, de Porto Alegre, de Recife, mas todos têm os seus. O que você prioriza?”

    então, o que VOCÊ prioriza?
    eu não dou a mínima para os eventos culturais que SP tem a oferecer.
    posso encontrar isso, pontualmente – sem overdose e megalomanices – em outros lugares.
    SP, pra mim, não vale a pena. n a d a, diga-se de passagem.
    mas conheço brazilienses que foram pra concrete jungle e de lá não saem.
    (dizem que BsB é uma roça!, vai entender..)
    como também não entendo como amigos nordestinos largam aquela belezura do nordeste, -beira de praia ou caatinga – pra se meter nas selvas-de-pedras da vida.
    sei também de meia dúzia de cariocas que não trocam o quadradinho por nada.

    e aí, qual é a moral disso?
    não faz sentido esse bairrismo, compatriotas!

    o post veio para acrescentar, e não dividir.
    estamos quase caindo no lugar-comum-de-todos-de-novo.

    BsB é diferente, “véi”.
    construída artificialmente, como o texto de Linspector indicado por um dos comentadores.
    precisa se auto-afirmar, está na pré-adolescência!

    reconheço que existem lindas cidades pelo mundo
    cheias de coisas bacanas e mazelas.
    e sei das vibes..
    esse lance de vibe de cidade é assusto sério.

    ow, a VIBE daqui, cumpadi, é fiRmeza, visse?

  17. Concordo. Brasília não tem culpa pelos bandidos que o restante do país manda para lá. É este o preço de ser a capital do país. Além disso, todas as cidades, grandes ou pequenas, têm seus defeitos e suas virtudes!

  18. Adorei o texto da Dani, como sempre adoro, mas dessa vez adorei especialmente a discussão que o texto gerou. É muito raro hoje em dia um blog com leitores (em comentários não mediados!) que conseguem manter uma discussão elegante, baseada em argumentos e não em ataques mútuos. Vocês nos dão muito orgulho!
    Eu e a Dani sempre conversamos sobre essas críticas rasas – que não merecem resposta, nós sabemos!!, mas que irritam todo e qualquer brasiliense, ainda mais quando repetitivas – mas também sobre os problemas reais da cidade – que nós, como vocês, reconhecemos, enxergamos, sentimos todos os dias na pele.
    Que a gente continue, aqui neste blog e principalmente lá fora, na vida real, capaz de olhar e repensar a cidade, com o respeito e o carinho que ela merece, com a paciência que se exige de uma cidade com mais de dois milhões e meio de habitantes e apenas meio século de existência, e o compromisso de pensar, refletir – e mudar! – aquilo em que a cidade nos desagrada sinceramente. O isolamento, a segregação social, o emburguesamento fácil…
    Este blog aqui é um estandarte por tudo isso: pelo carinho com a cidade e pela mudança, pela reinvenção de uma cidade mais generosa, mais aberta e integrada, mais socialmente horizontal, talvez até mais próxima da utopia que gestou esse projeto urbanístico. Esperamos que este espaço continue gerando discussões bonitas como esta.
    Nos sentimos sinceramente bem-acompanhadas com vocês por perto.
    Um beijo.

    • Assino embaixo, Carol. Essa discussão tá ótima, faz pensar e acrescenta muitos outros pontos importantes ao texto. Se a gente consegue reinventar um pouquinho a cidade, valorizando as coisas boas (como disse o Tiago ali em cima) é sinal de que estamos no rumo certo, de que vale à pena abrir esse canal. E valorizar as coisas boas não é deixar de cobrar, nem de apontar os defeitos, não. Mas a gente tem que fazer isso assim: agindo, discutindo, se mexendo. O ruim é ficar parado.

      Obrigada!

    • fiz questão de ticar naquela opção de receber os comentários. e a cada mensagem chegando, pensava exatamente nisso, que delícia de debate! gracias, meninas! 😉

  19. Que debate incrível! É fantástico constatar essa inquietação sobre Brasília, suas delícias e suas fragilidades, seus insucessos e seus delírios.

    Concordo com a Dani, talvez a gente esteja passando por um movimento de autoafirmação, típico de qualquer grupo social que levou pedrada a vida inteira e, de repente, parte pra reação.

    Quem conhece a Brasília, em sua gênese, sabe o quanto a cidade foi negligenciada e adulterada. Para reinventá-la é preciso conhecê-la, compreendê-la em seu âmago, honrar os seus gênios criativos, seu plano revolucionário para o surgimento de uma nova nação. Nação esta que ainda não parece estar pronta para acolher e reconhecer Brasília como ela merece.

    Como já dizia TT Catalão, a cidade que nasceu de um sonho, tem o compromisso de fazer desta realidade um sonho ainda mais bonito.

    Então, fica a pergunta: qual o seu sonho para Brasília? Qual a Brasília que queremos em 2060, no seu centenário? Falta pouco. Cabe a cada um fazer a sua parte!

    Valeu Quadrado!
    Tati Petra

  20. Legal, Dani. Brasília tem vários defeitos, mas as dicas de eventos e lugares de vocês mostram que a cidade está cada vez melhor! Que bom que já tem bastante gente se mexendo!

  21. Eu também gosto muito de Brasília, mesmo sendo ela uma cidade desigual porque não consegue pairar sobre a realidade do restante do País em que está inserida.
    Entendo os argumentos para que ela seja mais igual, abomino o saudosismo de quem a compara com Rio ou São Paulo. Ou por conta do argumento já citado “se a capital do Brasil ainda fosse o Rio, haveria muito mais protestos e mobilizações sociais” não posso pensar assim, pelo mesmo motivo, porque não vejo mobilização contra Sérgio Cabral etc. Esse argumento não faz sentido. Por outro lado a comparação com São Paulo me assusta, existem os que fazem isso também, no sentido de defender que as decisões políticas seriam mais acertadas. MEDO.
    Quanto à Curitiba, outra capital sempre citada quando se fala da modernidade de Brasília, conheço bem e inclusive estive do outro lado, analisando o sistema penitenciário de lá, que em minha opinião expressa a mesma exclusão nacional. Não foge do trivial, com um agravante que o sistema de transporte ( citado como exemplo de modernidade inclusiva) não conseguiu da forma desenhada unir diferentes. É uma sociedade discriminatória não só em relação às classes sociais, mas também às diversas etnias, como em outros locais do Brasil.
    O importante é ser feliz. Sou feliz em Brasília, mas não me excluo dos sons que ecoam reivindicando melhorias especialmente nas satélites. Elas são tão excludentes quanto às comunidades periféricas de outras cidades brasileiras, sem exceção, infelizmente.
    Mas é importante alertar que escrever daqui é diferente, mesmo. Realmente, na maioria das vezes o que temos lido é produzido como lembra a autora do texto referindo-se a outra reflexão, “ por pessoas encasteladas no ar condicionado de algum prédio de São Paulo ou do Rio, que não sabe nada de moringas, maniçobas, jerimuns, piás, – gente que não sabe nada do resto do país”.

  22. No Rio de janeiro é o inverso, sofremos de super auto estima. Nós acreditamos, sinceramente, no slogan de Cidade Maravilhosa. Achamos o nosso estilo de vida melhor, que somos mais bonitos, nossa vida cultural a mais interessante e os problemas…Ah! Que problemas?

  23. Aliás o carioca acha que o Brasil é o Rio de Janeiro. No máximo consideram São Paulo e o Sul.. O resto é tudo “paraíba”, não importa onde tenham nascido.

  24. Adorei!!! Disse tudo e concordo totalmente. Sou brasiliense e tenho percebido cada vez mais brasilienses cheios de orgulho em defesa da nossa cidade, que é sim muito criticada, diga-se de passagem, principalmente por cariocas, da EX capital que acham que Brasília não devia ter sido construído nunca, bom, mas foi. E aqui vive muita gente, nasceu muita gente e muita gente ama! Deviam respeitar mais. Eu defendo a cidade sim e não é q eu acho que é maravilhosa e perfeita… vejo os defeitos e o que poderia e deveria melhorar sim, mas definitivamente isso acontece em todas as cidades, sem exceção. 🙂 parabéns pela depressão pós-férias hahaha, rendeu!

  25. Infelizmente Brasília é somente conhecida, por grande parte dos brasileiros, apenas sobre o que se passa no jornal à noite na TV. Brasília é a capital do país e não tem como separá-la da capital política, isso é fato; mas a outra Brasília com suas festas, seus problemas, vida noturna, vida cultural é como se não existissem para os outros brasileiros que aqui nunca pisaram. Tenho a sensação, às vezes, que o brasileiro que não conhece a cidade, imagina que no Quadrado só exista a Esplanada dos Ministérios e ao seu redor há um grande deserto e nada mais.

    Se o cara lá do Rio estava falando mal de Brasília, tem-se que se conhecer o contexto. Por exemplo: certa vez, no site Flogs.com (parecido com o Fotolog) defendi a cidade de um usuário falando mal da cidade. Ele argumentou: “Não, você entendeu errado, eu me referi aos políticos”, até certo ponto isso é aceitável, pois sabemos que eu posso falar, por exemplo “O Planalto decidiu vetar a Lei das Drogas” O que na verdade estou dizendo que a “Dilma vetou a Lei das Drogas”.

    Marcelo Madureira em entrevista há alguns anos atrás, ao Correio Braziliense, disse que Brasília está muito longe do que o Brasil realmente é. Ele dizia que a realidade de Brasília não era a mesma do Brasil. No caso, ele se referia à política. De fato ele tem razão, a vida dos políticos está fora da realidade do brasileiro. Muitos brasileiros se referem à Brasília, na verdade falando dos políticos. Mas realidade de Brasília é tão igual quanto a do Brasil.

    Outro exemplo sobre o não-conhecimento, por parte da maioria dos brasileiros, sobre o nosso Quadrado, foi constatado por mim, quando vi um comentário de uma pessoa: “Tem que jogar uma bomba nessa cidade” . Era uma fotografia do Conjunto Nacional ao fundo o Congresso e a página (que é dedicada a falar sobre a previsão do tempo pelo País) falava sobre o clima da cidade à época. Creio que ele falou isso por conta dos Deputados. Mas eu pergunto: e as pessoas que não são políticas? E os parques cheios de crianças, os hospitais, as escolas? Olha aí a minha teoria que Brasília é a Esplanada em pleno deserto no Brasil Central. O cara justifica o seu voto ruim com o desejo de uma bomba na Capital Federal. Manda o seu lixo pra cá e quem leva a fama é a cidade.

    Eu não conheço o Rio e o que eu ouço no jornal à noite é sobre a violência. Então, porque não jogar uma bomba na favela da Rocinha? Lá só tem traficante e ladrão mesmo! Mas sabemos que isso não é verdade. Tem pessoas lá que não tem nada a ver com esse pessoal, o governo não dá assistência com infraestrutura e saneamento e sofre com a violência gerada pelos traficantes. Sinceramente eu não quero uma bomba na Rocinha.

    Quando ouço alguém falar mal de Brasília (mesmo se referindo apenas a políticos) eu não vejo somente os políticos, como a maioria dos brasileiros possa enxergar, eu vejo a cidade toda, pois nós brasilienses sabemos que a cidade não se resume à Esplanada, temos outros ângulos, outras vivências, temos tesourinhas, estradas-parques, setores… e além do mais Brasília é uma cidade cultural, com qualidades e defeitos. Os maiores índices de desigualdade social está aqui (Vide o Varjão e o Lago Norte tão próximos e tão distantes), temos altos registros de sequestros relâmpagos e de ótimo IDH. Ora e ainda ouço o povo falar que Brasília está longe da realidade do Brasil, discordo totalmente, somos a síntese do Brasil: com riqueza, defeitos, probreza, qualidades.

    Fiz uma montagem ano passado e postei no Facebook uma brincadeira que muita gente compartilhava sobre um determinado assunto e fiz o da cidade: “Brasília: visto pelos brasileiros, pelos brasilienses, pelos turistas e como realmente é” Você pode conferir no link http://on.fb.me/UdyQ9k

    Seu texto é ótimo, tem-se um vício de falar mal de Brasília e culpá-la por tudo, é o bode expiatório do Brasil e concordo com você: como é bom sair e como é bom voltar!

    Parabéns pelo blog e pelo texto.
    Abraço

  26. Engraçado que para nos brasilienses os politicos sao uma coisa assim distante…. Pensem que eu vivo na Italia e ouvi umas pessoas da Bahia falando mal de Brasilia e sao pessoas que nunca colocaram os pés em Brasilia. Eu respondi mesmo: voces façam uma visita a Brasilia, peguem os seus politicos baianos e levem eles para a Bahia em vez de largar essas merd** em Brasilia. CALADOS!!

  27. O brasiliense tem orgulho da cidade igual a qualquer morador de cidade do interior, não porrque a cidade é uma maravilha, mas porque é a capital, se a capital fosse em Aparecida de Goiânia, por exemplo, eles também se orgulhariam mesmo contra todas as evidências.

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