O público e o transporte

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Complete aí a frase: quando seu carro quebra, você…

(   ) manda vir o carro extra do seguro
(   ) aciona o papai, escraviza o namorado, dá uma indireta pra amiga – enfim, transforma todo o afeto distribuído recentemente em uma rede de caronas
(   ) vai de táxi, cê sabe
(   ) vai de busão

Posso estar errada mas suspeito que, na cidade que conta um carro para cada dois habitantes, muita gente não costuma sequer considerar a última opção.

Pois eu tenho amigos queridos que me encorajam ao contrário. Mesmo podendo ter um carro só para eles (como manda a anatomia brasiliense: cabeça, corpo e rodas), eles fazem esta outra escolha todo santo dia. Eles vêm de ou moraram muito tempo em outras cidades que têm o transporte público como regra e não como exceção – e se acostumaram a ter a noção de público associada à de transporte. Não conseguem pensar num sem o outro.

Pra essas pessoas, o trajeto cotidiano é muito mais do que a simples movimentação entre dois pontos. No caminho, elas fazem questão de transitar pela cidade de verdade, pelas pessoas, pela vida. Para elas, se locomover não se resume a curtir a Kiss ou a Nova Brasil FM enquanto quase atropelam as pessoas na faixa porque estavam checando seus SMS. Ver as pessoas na rodoviária, sentir calor na parada, comer um pastel, ajudar uma senhora a subir no ônibus faz essa turma viver de fato numa cidade, e não apenas passar por ela.

Tem gente, inclusive, que faz disso com muita competência uma bandeira de luta.

Neste exato momento você vai dizer: mas o transporte público de Brasília é uma droga. Acontece que esse argumento eu só aceito de quem usa o dito cujo.

Semana passada meu carro tirou férias de mim (evite atropelar tocos de cimento, amigos, dói no bolso). E eu fui de busão. E no terceiro dia da semana acumulei knowhow suficiente para chegar ao trabalho em exatos 18 minutos.

Não estou com isso dizendo que o sistema é bom – ao contrário. Do pouquíssimo que sei, há muitos problemas – e o primeiro deles é a falta de informação. É ridículo como falta. É absurdo como falta.

Imprimir cartazes com os itinerários de todos os ônibus que passam em cada parada do DF não custaria o salário de um mês de muito primeiro escalão por aí. Três alunos da UnB desenvolveriam felizes um aplicativo com os trajetos – que funcionasse de verdade. A internet abrigaria de graça, em um blog que fosse, um mapa com todas as linhas de ônibus. Então por que será que nenhum governo jamais se dignou a fazer um sistema de informações decente sobre como pegar um ônibus de um ponto X a um ponto Y de Brasília, de um jeito simples e elucidativo?

Desconfio que seja justamente porque, assim como muitos de nós, quem manda nisso tudo nunca anda de ônibus. Julgamos o transporte público de Brasília assunto de adolescente ou de periferia – como se isso merecesse descaso – e foi assim que a situação chegou aí onde está.

Bora?
Enquanto a informação não chega, façamos old school: pergunta pro seu colega qual a melhor linha pra chegar até em casa e ouse – vá de busão.

25 respostas em “O público e o transporte

  1. Perfeito! Não uso carro há quatro anos e, ao mudar do Rio para Brasília, resolvi continuar pedestre. Sei que estou na contramão, mas o tempo que eu ganho não procurando estacionamento, o prazer de ir para o trabalho pensando na vida e a ausência de estresse do trânsito compensam. Eu levo 20 minutos entre minha casa e meu trabalho.
    abs,

    Cyntia

    • Fico muito feliz com suas notícias, Carol, e com a sua, Cyntia! Estou com a intenção de voltar a fazer isso – dar preferência a andar de ônibus ao invés de usar o carro. Fiz isso um bom tempo, e concordo inteiramente com o que dizem: sim, poder pensar na vida, olhar a paisagem, olhar as pessoas nos olhos, ajudar aqui e ali, ouvir música, caminhar um pouquinho… ou um poucão… ler… comer pastel com caldo-de-cana na rodoviária… Muitas vezes me senti quase um ET com essas minhas idéias. Estou vendo que não. Viva!
      Um abraço celebrativo!
      Vera

      • Viva, Cynthia! Viva, Vera! Brasília precisa de gente que quer sair da caixinha e tentar fazer as coisas de um jeito diferente! Beijos nas duas!

  2. Ah, já entrei nesse debate mil vezes. Você, que morou cinco anos numa cidade ampla e absurdamente bem atendida pelo transporte público deve sentir doer na alma ter de pegar um carro pra ir até a padaria – sim, em Brasília, o cara pega o carro pra andar duas quadras, trajeto que a pé levaria uns 8 minutos.

    Eu morei um ano fora em 2004 e não tive carro. Funcionava bem, mas era outra realidade. Não tem como relevar a qualidade precária do transporte público a apenas uma parcela disso tudo. Ele simplsemtne não funciona, não é adequado. Já fiz várias vezes o trajeto entre a minah casa e o setor bancário norte de ônibus. Eu moro a exatos 5,9km do meu trabalho. Parece perto. De carro, são 8 minutos pra ir e uns 18 para voltar (engarrafamento em tesourinha). De metrô, não dá pra ir, porque não tem metrô na Asa Norte.

    De ônibus eu até tentei. Pra vir daria. Da W3 pra rodoviária são 15 minutos, mais uns 15 andando, o que é razoável. Agora, pra voltar, são 45 minutos de ônibus. A linha simplesmente volta pro Setor de Diversões Sul antes de tomar o rumo.

    Então, eu posso dizer que usei o transporte público e ele nao me atende.

    Tem outra: sair pra almoçar longe do ambiente do trabalho, pegar filhos na escla, usar a hora do almoço pra resolver problemas não é um luxo, é algo necessário e saudável (no meu caso, eu uso a hora do almoço pra nadar – onde tem mesmo ônibus do setor bancário norte pro setor de clubes sul?). Então isso complica muito a vida da maioria das pessoas que trabalham em Brasília não têm um expediente corrido (acho que isso é minoria ainda).

    Dito isso, eu concordo duzentos por cento com você sobre a falta de informação. NA época da UnB, eu ia de ônibus (pegava na L2 Sul e descia ou na L2 Norte – caminhava uns 20 minutos até a FAC – ou pegava um que passava de tempos em tempos e descia do lado da faculdade) e aprendi os horários de tanto levar na cara. Suas ideias e sugestões são fantásticas. E simples, ne?

    Tenho muita tristeza quando vejo pistas sendo alargadas, quando o pessoal fica “aliviado” de ver projetos de construirem estacionamentos para 12 mil vagas na Esplanada e por aí vai. Como li outro dia, “resolver o problema de transporte público alargando vias e ampliando estacionamentos é como resolver o problema da obesidade comprando uma calça mais larga e afrouxando o cinto”.

    Eu sempre escrevo demais nos meus comentários, espero que não se importe. É que eu adoro tudo o que vocês fazem.

    Beijo grandão!!!

    PS: A melhor parte do texto é “se locomover não se resume a curtir a Kiss ou a Nova Brasil FM enquanto quase atropelam as pessoas na faixa porque estavam checando seus SMS”. rsrsrs

    • E a gente adora seus comentários!
      Realmente fazer tudo de busão é difícil mesmo. Mas não impede que tentemos fazer algumas coisas. Isso já muda muito, nas nossas vidas e na vida da cidade.
      Beijoca, xuxu!

  3. Carol,

    Eu, acomodado e motorizado, acho o debate extremamente relevante. Onde se tem transporte público de qualidade, carro é luxo e tem preço de luxo, seja para comprar, seja para usar. Em Brasília a classe média não é de fato exposta ao custo do seu carro. Os bens públicos escassos, como vagas, ruas etc., são de graça. Não se paga também pelo que se polui, Ou seja, apesar de muitos reclamarem de um IPVA caro, não se paga taxa pelo uso dos bens públicos (e imposto não é a mesma coisa que taxa). Some-se isso aos incentivos irracionais que se oferecem para a compra de carros novos, como financiamento barato e redução de IPI. Aí, claro, a classe média pira e compra um carro pra cada um da família. O problema é que isso faz com que a qualidade do transporte organizado ou oferecido pelo estado fique de fora do debate político, tanto durante as eleições como depois delas. A única coisa que nos interessa é o preço da passagem não subir, por causa da despesa com as nossas empregadas. Sem a pressão inteligente e organizada pela qualidade do transporte público, porque o governo há de se importar com isso? Assim, a classe média não anda de ônibus porque o ônibus é uma porcaria e o ônibus é uma porcaria porque a classe média não anda de ônibus.

    • Concordo com você também, Ricardo, em dois pontos – para alguns lugares o transporte é … absurdo. Se você pode ir de carro em 10 minutos… ir de transporte em 45… é um heroísmo. O segundo ponto é quanto a não se andar de transporte porque ele é ruim. Será bem mais fácil que ele melhore quando uma maior parte da população-classe média utilizá-lo… e colocar energia na sua melhoria.

      • Pras coisas mudarem, gente, a GENTE precisa mudar. A cidade só muda quando a gente entender que a cidade é a gente! Beijos pros dois, adorei a contribuição de vocês!

      • Conocrodo Ricardo. E essa coisa de “não ligar” pra qualidade do que é público se estende tb pras escolas e hospitais. Se eu não uso, pouco me importa se não funcionam. Só que escolas, hospitais e transporte públicos de qualidade resultam em uma cidade que funciona, com menos trânsito e violência e com mais gente feliz. É bom pra TODO mundo, pra quem usa estes serviços diretamente ou não. Se alguém aí quiser começar alguma mobilização/pressão/conscientização nesse sentido, tô dentro!!

  4. Eu, aliás, nossa família, sempre escolhe a última opção nos momentos de carro em revisão ou oficina. Seu texto me faz lembrar quando morava em SP e que, acredite, não tinha carro e deixava criança na escola, ia trabalhar e depois ia para a pós-graduação de ônibus (não tinha metrô no trajeto trabalho-pós). Os trajetos eram beeem longos, mas era feliz por não ter carro. A locomoção em SP atendia grandes e pequenas distâncias, o que me parece faltar aqui. Se quiser ir tomar um café no Sebinho na 407N saindo da 308N e não estiver a fim de andar debaixo de sol, preciso ir até a W3 pegar um ônibus que dará uma tremenda volta e me deixará na L2. Faz sentido isso? É claro que não. Até hoje não entendo pq não existem ônibus pequenos (zebrinhas) que possam realizar transporte entre quadras. Ou pq o metrô não continuou até Sobradinho, passando pela Asa Norte. Ou ainda pq com essa organização urbana, da qual o brasiliense se orgulha tanto, Lúcio Costa planejou uma Brasília que privilegia os carros.

    • Flavia, concordo com você, que as alternativas para quem anda de ônibus em Brasília são super restritas, não só pelo número reduzido de linhas, mas também pela falta de transporte em vias menores. Tipo, você mora em Sobradinho e tem uma reunião na biblioteca da UnB. Não há outra alternativa se não descer no eixo e ir andando. Nesse ponto Brasília mostra o que tem de pior.

    • É exatamente isso. Não é só má vontade ou comodismo. Se você quer ir das quadras 300 pras 400, a não ser que esteja no final das Asas, não tem como ir de transporte público de forma a não perder um tempo muito além do tolerável.

      Se aqui no Plano Piloto é assim, imagina em lugares mais no entorno, onde os moleques têm de andar dois KM pra chegar numa parada de ônibus e ficar mais uma ou duas horas até cehgar na escola?

      • Penso nisso também. Usar o transporte público, com todas essas dificuldades que estão no texto e nos comentários, deve ser uma dor de cabeça gigantesca para quem rigorosamente não tem outra opção. Para quem tem carro, ou para quem poderia ter um, mas prefere usar o transporte público até para demandar melhorias no sistema com mais propriedade, há dias em que há tempo/condições para contornar os problemas da falta de transporte em vias menores, como disse o Tiago mais em cima. Mas há dias e situações que não, como é o caso de quem precisa pegar filho em escola e com horário rigoroso para entrar no trabalho na volta do almoço. Então eu acho que esse debate é superimportante e foi muito legal você ter citado uma fragilidade que nem me passava pela cabeça, mas de solução fundamental, Carol: a sistematização, e publicidade, dos itinerários, das opções para quem precisa ir do ponto A para o ponto B. Não tem mesmo isso aqui. Parabéns pelo texto!

    • Quando a gente conversa com os “especialistas”, Flávia, eles têm um milhão de explicações, tipo que o terreno da Asa Norte não comporta metrô (vai entender). Mas eu acho que essas questões de trajeto são super confusas porque a parada é mal planejada, e é mal planejada porque não tem gente o suficiente batendo na porta da Secretaria de Transportes dizendo: “eu quero um trajeto assim!”. E eu ainda digo mais: às vezes os trajetos existem!! E a gente não sabe!! No primeiro dia, eu demorei quase uma hora pra chegar em casa porque peguei o busão errado. Depois descobri que tinha vários que vão pras satélites e que passam do lado de casa.

      • Em suma, é isso: mais informação, pra começar! Beijos em todos os que participam desse debate tão massa!

      • Carol, que especialista disse isso??? Impossível, no Rio o metrô, com seus mil defeitos, é verdade, passa sob rochas e é cavado em areia de praia nas estações próximas ao mar. Não consigo acreditar que seja tecnicamente inviável o metrô na Asa Norte.

    • Onde eu assino, Flavia? Estou aqui há 3 anos e tenho os mesmos questionamentos. Fazer metrô aqui é relativamente simples, não há rochas a serem perfuradas, desapropriações pelo caminho, nada que onere ou complique uma obra dessas.

  5. Eu ja li o contrario, que a topografia de brasilia eh perfeita para o metrô. E o projeto de expansão, que o arruda ameaçou fazer e parou depois que roubou muito, eh bem claro: metrô na asa norte teria sua primeira estaçao no hran ( essa ja taria sendo licitada) e depois mais oito estacoes nas quadras impares, 103, 105 etc ate o fim da sa norte, no setor hospitalar, onde faria integracao com a linha tres do vlt, que iria dali ate o patio brasil. A linha dois do vlt eh a que iria do patio ate o canteiro de obras no fim da asa sul e dali ate o aeroporto eh a linha um, cuja nova licitacao sai agora em abril. Ou nao.

    Esse infografico tem ainda varias outras definicoes e ocorreio braziliense ja publicou algumas vezes.

    Beijos

    • Exato, Bsb tem uma topografia plana e os amplos eixos rodoviários evitam que haja desapropriações, por exemplo, para a execução de um projeto de metrô.

      • Também acho! Metrô já! Mas que a inoperância dos governos não seja nunca desculpa pras pessoas deixarem de agir, de viver a vida do jeito que elas acreditam.

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