A plateia como resumo da cidade

hh

Dia do aniversário de Brasília, Esplanada dos Ministérios. O bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda, um dos mais respeitados do mundo, apresenta sua obra mais erudita – a peça sinfônica que compôs em homenagem ao aniversário de Brasília. Pouco depois, acompanhado da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, ele recebe Milton Nascimento como convidado especial.

No adiantado do espetáculo, Hamilton anuncia que começa ali a última parte do show – e é recebido com uma constrangedora comemoração, em tom de “até que enfim”, por um público ávido pela próxima atração, a banda Teatro Mágico. A reação se repete umas duas ou três vezes, levando o músico ao microfone para pedir paciência: “Também gosto do Teatro – mas calma, pessoal, deixa a gente acabar aqui com nosso show”.

Não é de hoje que se reclama de indiferença, de arrogância ou de falta de entusiasmo do público brasiliense. Costumo defender, argumentando que nosso público tem senso crítico e não se seduz à toa – mas confesso que fiquei envergonhada com o episódio.

Daí resolvi ouvir o Hamilton sobre a reação da plateia naquela noite. E ele, que já na hora contornou a situação com muito jogo de cintura, me pareceu ainda mais ponderado e contemporizador. “Adorei o aniversário de Brasília, memorável no melhor sentido. Acho que a programação deve ser variada mesmo, para todo gosto, afinal o aniversário era da cidade”.

Gentil, minimizou a falta de educação de parte do público. Compreensivo, disse que realmente era difícil para a plateia suportar o atraso de mais de duas horas: “olha, com um atraso de mais de duas horas é natural que as pessoas fiquem ansiosas. Não acho que tenha sido uma reação à música instrumental – e se foi, eram dez pessoas contra vinte mil que estavam curtindo o som. Inclusive eu pedi para a galera ter calma, agradeci a paciência”.

Para ele, o público de Brasília, em geral, adora música, seja qual for o estilo. “O que me marcou foi ver um monte de gente chorando de emoção com o show. Isso é que fica”.

Sem que ele tenha citado, não teve como não lembrar dos Bailes da Vida, do mesmo Milton que dividia o palco com ele naquela noite: ir até onde o povo estar, não se importar se quem pagou (ou não pagou, no caso) quis ouvir. Uma generosidade só possível por meio da arte – que, no caso, alivia mas não deixa de servir de lição.

Fiquei pensando como o exercício de “ser plateia” é uma excelente imagem de como somos como cidade, como cidadãos. Nossas reações coletivas falam muito sobre nós – e não podemos nos dissociar desse todo com o argumento fácil de que “são os outros”.

Se, ainda bem, já não somos violentos como fomos – nenhuma ocorrência grave marcou os dois dias de shows na Esplanada – acho que ainda podemos ser mais gentis, respeitosos, generosos com quem vem compartilhar sua arte com a gente. Ser uma plateia melhor, mais calorosa, é, também, ser uma cidade melhor.

8 respostas em “A plateia como resumo da cidade

  1. Falou e disse. Achei o show de uma beleza ímpar. Porém, erros primários de organização foram nítidos e acabaram por resultar em uma plateia “descontando” sua frustração no artista – exposto a uma situação sobre a qual ele mesmo não é responsável. Não faz o menor sentido a organização colocar uma orquestra – que tem uma troca de palco demoradíssima – para tocar em terceiro lugar. E a qualidade do som estava tão sofrível antes, que Hamilton e a orquestra tiveram que dar um jeito nisso para que pudessem tocar.

    Se é possível, vejamos pelo lado bom: também somos Hamilton, com sua modéstia e delicadeza.

  2. não estive na esplanada, mas o ocorrido é realmente lamentável. concordo integralmente com o último parágrafo. gentileza, respeito, generosidade… é o mínimo que se espera em qualquer circunstância.

    um abraço!

  3. Eu deixo aqui minha crítica à organização do show. Duas horas de atraso é brincar com a paciência do público e fazer o artista se desdobrar no palco para driblar o cansaço físico e mental da galera. Acho que somos sim gentis.. mas somos impacientes também. Eu estava no meio da multidão e, de fato, fiquei constrangida com os pedidos de “só mais um”, do público. Mas acho que nem só os brasilienses são culpados aí. Depois do show do Teatro Mágico (marcado para começar umas 19h50, e iniciado às 23h.. por aí), metade da galera foi embora, deixando o show do Lenine muito mais mirrado do que seria se tivesse começado às 21h50, como marcado. “Heróis da resistência”, brincou quando subiu ao palco depois de meia noite. O show estava fantástico, mas eu, por exemplo, tive que ir embora antes do fim porque, afinal, já era segunda-feira.

    Tem uma coisa muito errada nessa cidade quando se falar em respeito aos horários marcados. É falta de respeito com artista e público. Por isso rola tanto constrangimento. Uma pena!

  4. Achei uma falta de respeito extrema! Estava lá no show e acho que, embora, tenha havido atrasos, quem está em cima do palco não pode ser hostilizado. Hamilton foi um lorde, de uma educação ímpar. Por várias vezes os fãs do Teatro Mágico o hostilizaram e ele se mostrou muito paciente. Acho que o público precisa, sim, de mais educação. O mais comum hoje é vermos pessoas sem paciência, que acreditam que a sua vontade e o seus desejos devem prevalecer sobre os dos demais. Jovens sem limites, que acham bonito zoar artistas que estão em cima de um palco oferecendo-lhes o melhor de si. É aquele velho ditado do dar pérolas aos porcos. tem gente que não merece ouvir a música do Hamilton! Eu fiquei indignada com o ocorrido e estou feliz por desabafar aqui.

  5. Estive no show do Hamilton, um show lindo, maravilhoso! A falta de educação de uma minoria barulhenta não pode ser tomada pelo comportamento de todo mundo. Não era um show do Teatro mágico, mas um show com muitas atrações. E concordo com a Luciana, houve atraso, mas porque hostilizar o artista?

  6. Estava tudo muito atrasado, se os horários estivessem corretos nada disso teria ocorrido. O show do teatro magico foi pavoroso, mas o pessoal é fã né, estavam querendo o show pra poderem ir embora. De qualquer modo a participação do Milton amansou todos, maravilhoso! O show do lenne começou 1 da manhã!

  7. Carol, teve facada de careca em anarcopunk… Ok, a pessoa está viva, mas não acho que dá pra se generalizar a ideia de que não houve ocorrências graves.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s