Um milhão de perguntas

balamane

Eu hoje sou só perguntas. Passei o final de semana conversando com as pessoas, lendo reportagens, tentando entender este novo país que nasceu nos últimos dias: um Brasil que protesta. Um gigante acordado.

Eu, que sempre estive do lado dos indignados, que não me conformo com a corrupção, que quero um país mais justo, que vivo da liberdade de expressão, sou a mesma pessoa que conhece a política por dentro – que sabe que, especialmente num ano pré-eleitoral sui generis como o que vivemos, partidos políticos têm em seus quadros especialistas competentes demais em mobilização social, bons articuladores de manifestações e realizadores de vídeos emocionantes que viram virais de facebook.

Eu estou confusa. Eu sou só perguntas.

A quem interessa uma mobilização com uma pauta tão ampla? Que resultados podem ter manifestações assim? Quem está por trás de ônibus que transportam manifestantes e caminhões que levam pneus para serem queimados em passeatas? Por outro lado, como podemos nos calar quando é a liberdade de manifestação de ideias que está em jogo? Qual o nível real de liberdade deste tipo de protesto? Quem é livre? Quem é manipulado? Ficar calado, comentando o mundo lá fora pelo facebook, não é necessariamente o pior tipo de covardia?

Eu hoje sou milhares de perguntas – e só uma certeza: é proibido não pensar, é proibido não falar sobre este assunto.

Foto: Breno Rodrigues

8 respostas em “Um milhão de perguntas

  1. é isso aí. N”ao consigo ter nenhuma conclusão certeira aqui. Tenho amigos que trabalham na polícia e ficam tristes para caralho quando lêem as noticias vilanizando eles, por suposto excesso do uso de força. Eles contam relatos de gente que confessou ter recebido grana pra ir protestar, tambem de varios elogios de gente que se sentiu segura na presença deles e, mais ainda, de manifestantes que estavam forçando a barra pra causar tumulto e conseguirem entrar noe stadio sem ingresso.

    Por outro lado, também conheço gente que foi atingida pelo gás lacrimogêneo e que considerou muito agressiva a abordagem de alguns policiais, sem distinção.

    Enfim, nao tenho nenhuma resposta pras suas perguntas.

    Beijocas.

  2. É claro que não podemos ser maniqueístas. Nem todos os policiais são sádicos, nem todos os manifestantes são pacíficos. Mas para mim está muito claro de que lado a balança pesou. Além disso, acho que essa história de ser “livre” ou “manipulado” é um falso dilema, tendo em vista que todos nós temos nossos preconceitos e nossos pontos de vista. Ficar pensando nisso não leva a lugar nenhum.
    Há muito tempo temos passeatas e manifestações praticamente toda semana na Esplanada. Quem trabalha por lá até já se acostumou. Trata-se de um espaço simbólico, claro, que as pessoas querem utilizar para mostrar suas demandas. Entretanto, dificilmente se vê violência nelas. Por outro lado, será que em nenhuma delas havia pessoas “transportadas” para estarem ali? Será que isso faz diferença de fato — até se considerarmos que um dos pontos principais do protesto é a mobilidade urbana e que muitas pessoas não teriam como estar ali, naquele lugar simbólico, por conta própria? E se uma parte das pessoas foi por conta própria, o protesto todo ficaria “contaminado” por conta dos demais?
    Também considero a questão da pauta muito ampla um falso dilema. O movimento tem um objetivo bastante preciso: protestar contra o aumento das passagens no transporte público. Daí não me parece descabido que as pessoas façam a seguinte correlação: o preço sempre aumenta, mas a qualidade pouco melhora. Se alguém for protestar não porque os 20 centavos lhe façam diferença (e não é difícil entender que para algumas pessoas eles fazem, sim), mas porque acha que a qualidade anda muito ruim. Na verdade, fico com a impressão de que a “ampliação excessiva” da pauta é mais a imprensa e os “pensadores” tentando entender por que afinal tanta gente estava ali na rua, e a conclusão a que chegam é de que deve haver outras causas. E se houver, nosso pensamento e nosso desejo de protestar podem ser assim segmentados e divididos de forma tão rigorosa? Hoje vou protestar porque não concordo com o aumento, amanhã não vou porque umas meninas estão querendo protestar a favor do aborto, e eu, como homem, não tenho nada a ver com isso… Percebe a que absurdos podemos chegar ao tentar delimitar muito a pauta de um protesto?
    Aqui em Brasília, é verdade, penso que a pauta é outra. Há muito paira uma indignação no ar contra um governo que tem tomado decisões atabalhoadas sem consultar a população e sem transparência. De todo modo, por não conseguir entender direito o motivo da manifestação, achei melhor não ir. Em todo caso, conheço gente que foi e que achava que havia ali um motivo justo para protestar. Até em apoio aos manifestantes de São Paulo. Haveria algum problema nisso? O que não dá para entender é um policial passando em cima de um manifestante com uma moto, como vi num dos vídeos sobre a manifestação daqui.
    Enfim, não conheço nenhum policial militar (quer dizer, conheço uns dois, mas por conta de comentários sexistas e violentos nas redes, acabei bloqueando estas pessoas), então não li nenhum relato sobre o ponto de vista deles. Li o de alguns conhecidos que foram, e a impressão de que fiquei é de que a reação foi bastante exagerada. Da próxima vez, talvez o melhor é ir ver com os próprios olhos.

  3. Sim, Carol, tem de tudo e há muitas dúvidas. Também tenho.

    Os manifestantes de sexta eram parecidos com muitos que já vimos em campanhas eleitorais de um povo que você conhece melhor que eu. Os de sábado, em sua maioria, eram estudantes com caras cheias de espinhas. E, em meio a eles, alguns oportunistas e outros vândalos, que perderam a razão ao tentar impedir os torcedores de entrarem no estádio. Mas a maioria tinha boas intenções, estava exercendo o legítimo direito de se expressar, sem excessos.

    Dentro do estádio, estava a classe média, incluindo o seu leitor fiel aqui e família, apaixonada por futebol, que pagou caro por cada um dos ingressos com o salário declarado em imposto de renda para usufruir de um espaço público construído com dinheiro público (R$ 1,2 bi, até agora), mas usado por uma minoria do público.

    Na minha humilde opinião, toda manifestação é legítima, inclusive as vaias. É o melhor que a democracia oferece. E nela não é a PM ou outra autoridade que vai nos dizer como e onde temos que nos expressar. Há leis e elas garantem direitos e preveem punições. Para todos.

    Como já opinou nosso sábio, lúcido e experiente amigo Olímpio, não tenha medo. As dúvidas têm que ser tirada nas ruas. Temos que ir lá, saber quem é quem e nos juntar com quem acreditamos, para defender o que acreditamos e o que queremos para nós e os nossos filhos. A hora é agora.

  4. também ando rodeada de interrogações. mas essa chacoalhada nas ideias já me parece uma ótima herança desse movimento sobre o qual quase nada sabemos. beijo!

  5. Ouvi por aí (já não lembro mais de quem):
    “_Quem não estiver confuso não está devidamente informado”.

    Texto joia esse seu, Carol (pra variar).

    Bjs!

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