Me sinto morando num Classificados

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Este poderia ser um post sobre as faixas irregulares de Brasília – mas não. Já falamos sobre isso e continuamos acompanhando com fé o trabalho das tesouras mais rápidas do Centro-Oeste, que fazem um trabalho de formiguinha mais eficaz que o do governo na tentativa de coibir essa prática horrorosa.

Mas as faixas são, aqui, só uma alegoria. Porque este post é um manifesto contra a enorme influência do mercado imobiliário na pauta das nossas singelas vidas brasilienses.

Queridos amigos, eu não aguento mais conversar, ouvir falar, ver, esbarrar em faixas, receber panfletos sobre venda, compra, reforma, investimentos e assuntos afins. Eu não aguento mais encontrar o quiosque de uma construtora quando estou andando de bicicleta no eixão. Eu não aguento mais viver cercada de gente que passa os dias a economizar seus centavos para comprar um apartamento, colocar móveis planejados, comprar outro maior ou investir em um terreno.

Cadê meus amigos empreendedores? Cadê as pessoas que querem mudar o mundo? Cadê a turma que dorme e acorda pensando em como renovar o rock brasiliense? Cadê o grupo empresarial que vai investir pesado para transformar Brasília no polo cultural mais pujante do país?

As faixas me entristecem diariamente, mas sei lá se é só porque elas enfeiam a cidade esteticamente. Acho que é mais porque elas enfeiam a cidade subjetivamente – se elas fossem de declaração de amor, se elas fossem de alguém que propõe um coletivo de autores literários ou de uma banda que busca um guitarrista novo talvez eu nem me importasse tanto.

O mundo é grande, a vida é imensa, tem um montão de coisa aí esperando ser feita. Para que cada um de nós tenha uma vida mais interessante – e a cidade, no final das contas, se torne um lugar mais interessante também.

11 respostas em “Me sinto morando num Classificados

  1. Cadê a turma do transporte público para encher nossa cidade com trens urbanos de boa qualidade!! Uma cidade BELA e PLANA como a nossa poderia estar num outro patamar de desenvolvimento com um olhar realmente aderente à realidade e necessidades locais.

    Viva Brasília para Todos!!

  2. Empreendedorismo é coisa rara por aqui – e cara também. Acho que Brasília sofre mais por ser uma cidade de muitos funcionários públicos – talvez por isso menos gente pense em abrir um negócio ou viver de uma forma que não dependa do Estado. E os que se arriscam pagam muito caro. Falo porque tenho um empresário em casa que vive cheio de problemas na cabeça.

  3. Existe uma obsessão por imóveis em Brasília. Meus amigos que compraram se sentem salvos e mais espertos do que quem escolhe alugar. Não sei se é coisa de brasileiro ou se é daqui.

  4. Parabéns pela reflexão! É realmente angustiante essa sensação de morar em uma feira de imóveis!!! Brasília tem que ser bem mais que isso e cabe a sua população refletir sobre o que a cidade se tornou de 5 anos para cá e se negar a participar dessa histeria coletiva. E que a bolha estoure, e logo!

  5. “O setor imobiliário herdará a terra – e as cidades, suas casas e almas.
    O post. é ótimo. Não que acho que os brasilienses devam pensar em outra coisa, pois seus desejos materiais são tão objetivos e rasos que somente se equilibram com um pensamento mágico que favorece o misticismo, além de interessantes padrões de inconsistência lógica.
    Por exemplo (algo que pode até valer outro post), é impressionante viver na Capital da República, testemunhar a corrupção, mas nada fazer quando os amigos e colegas se comportam desonestamente. Temos, brasilienses, sérios lapsos entre nossos padrões de ética pública e de ética “menos pública”. Esse é um padrão de inconsistência lógica (e moral) que testemunho na universidade, nos formigueiros do serviço público, nas empresas privadas, em quase todas as esferas.

  6. São coisas que só se percebe com uma profundidade maior, quando se sai da cidade, como é o meu caso (Florianópolis).
    Mas não é só sair como quem viaja pra conhecer um outro lugar por 20 dias ou sai do ambiente geográfico mas continua com a mesma rotina. É sair pra viver numa outra cidade mesmo, viver uma rotina diferente, com pessoas locais, com outros grupos sociais, perceber e viver as diferenças organicas e culturais de um lugar pro outro.

    Eu gosto de Brasília, nasci aí, tenho mihas memórias e saudades de lugares e principalmente de outros tempos dela quando fui muito feliz aí, mas hoje, do lado de cá, consigo perceber que Brasília é uma cidade tão peculiar em arquitetura mas ao mesmo tempo tão sem identidade, que acredita que é única, diferenciadamente moderna e que tem mais particularidades que as outras. A frustração inconsciente pela falta de identidade é tão grande, que até mesmo problemas como o da especulação e obsessão imobiliária, a cidade acredita que são exclusivos dela. O drama se torna quase uma vaidade implícita.

    Vamos falar a verdade, Brasília parou no tempo. E não foi agora.
    Estou com 36 anos e já foi tempo suficiente pra perceber que ela tentou criar um monte de rótulos pra se promover e até deu certo por um tempo, mas não pegou. Só pegou pros seus filhos mimados (como eu) que acreditam até hoje num legado que nunca existiu, como o tal Rock Brasília por exemplo; um rock de bandas que até nasceu ali (algumas, convenhamos não tão diferentes das outras contemporâneas no país), mas se criou fora da cidade exatamente porque ela nunca ofereceu condições pra que se desenvolvessem…aliás, como não oferece até hoje. Vamos lá…junte um bom poeta, bote a plataforma do Joy Division e você tem a Legião Urbana e um Renato Russo egocêntrico com manias de Ian Curtis (até na dancinha da minhoca aloprada!). Paralamas do Sucesso é do RJ de passagem por aí. Plebe Rude fez um bom single e Capital Inicial come o pão que o diabo amassou até hoje tocando o mesmo repertório de bosta a 30 anos sem o menor talento pra se reinventar…só tá aí na história porque o Cacrinha permitiu.

    A sociedade do Plano Piloto (e Lagos) é uma burguesia com ares de aristocracia besta e antiquada, cafona, brega, emergente e inventada, metida a intelectual e politizada que acredita piamente que a Capital Federal é a corte, o centro das atenções do país, onde tudo acontece, onde tudo é melhor e onde tudo é pioneiro.

    Talvez por ser a sede administrativa dos três poderes da nação, nunca assumiu deixar o orgulho de lado, olhar pro próprio umbigo e perceber que diante de todas as sua mazelas, não passa de uma cidade ordinária que até hoje não foi inventada completamente. E pelo visto rema mais pra trás do que pra frente.

    Uma cegueira só, onde (como bem comentado) as pessoas se matam pra juntar dinheiro pra comprar, a preços extorsivos, um apartamento velho dos anos 70 na Asa Sul ou Asa Norte, porque fica(va) a 10 minutos do trabalho no centro da cidade, pra onde inclusive, elas vão de carro, afinal burguesia que se preze não pega ônibus, nem metrô, nem bicicleta…gosta mesmo é de ficar sentada com a bunda xôxa no carro do ano e que não tem nem onde estacionar, porque se para longe ainda corre o risco de ser sequestrada (tá na moda por aí!).

    Acorda Brasília. Tá na hora de desmamar.
    Existe vida fora daí…melhor, mais barata, mais moderna…e mais bonitas(!!!)

    • Rodrigo,
      Que bom que você se encontrou aí em Floripa!! Realmente o mundo é muito grande, tem espaço pra todo mundo – inclusive para quem gosta de Brasília, com todas as suas contradições e idiossincrasias, e quer fazer dessa cidade aqui um lugar mais bacana. Foi pra isso que a gente criou esse blog!
      Beijos pra você!

    • Eu sou de Belo Horizonte. Me formei na UFMG e me mudei para Sydney/AUS em 1993. Voltei um ano depois. Morei em Lagoa Santa/MG, Corumbá/Pantanal/MS, Brasília, Corumbá de novo e Brasília mais uma vez.
      ADORO Brasília! E sei reconhecer os critérios que, após atendidos, asseguram o posto de “adorada” a esta cidade. Estou aqui porque escolhi. Escolha informada, comparada (com o que temos, que, mesmo não sendo nada, é tudo o que temos, né!!??) e bem resolvida.
      Brasília é feita de quase tudo (não tem neve!!:)) e, como qualquer outro lugar neste Planeta, vai, a seu tempo, se formando, se reconhecendo, se (des)construindo, ou seja, sendo Brasília.
      A cidade que, a despeito de todas as suas limitações, oferece a seus cidadãos uma possibilidade de convívio cidadão/cidade muito interessante.
      Não há de se pressionar Brasília. Pode ser que ela sabe caminhar sozinha…

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