Feliz olhar novo

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Na relação nova que estabeleci com Brasília quando voltei para cá, há dois anos, meu maior desejo era que o olhar novo com que eu observava a minha cidade não se perdesse nunca. Cheguei com a sensação de estar vendo o que os outros não viam, querendo reinventar hábitos, questionar rotinas, viver a cidade de um jeito novo – voltar para casa foi tão intenso quanto sair daqui.

Criar este blog junto com a Dani foi uma consequência do jeito que escolhi viver – este espaço é quase que a materialização do desejo de repensar e olhar a cidade de um jeito diferente. Mas ontem, pela primeira vez desde a volta, senti minha missão ameaçada.

Caí no lindo texto publicado pelo fotógrafo Orlando Brito – pioneiro da cidade e um dos fotojornalistas mais respeitados da capital – em que ele conta da tristeza que sentiu ao levar um amigo estrangeiro para conhecer e fotografar Brasília. Ele conta como, de repente, ele se deu conta do abandono a que cidade está relegada. É um texto duro e sincero, aliado a fotos que falam sozinhas: cones, cercas, banheiros químicos, estruturas de edifícios completamente comprometidas. Ontem à noite ele me contou que o monte de lixo que ele fotografou no domingo continuava lá ao cair da tarde da segunda.

Fiquei triste como todo mundo que leu o texto do Orlando – mas, no meu caso, fiquei também profundamente incomodada de perceber que eu precisei ler aquilo tudo para me dar conta. Meu olhar envelheceu.

Eu passo ali todos os dias – eu enxerguei a cerca tombada no caminho para o trabalho, eu vi os banheiros químicos, todo mundo enxerga esse arremedo de ciclofaixa que entope a cidade de cones, sem resolver nada nem para carros nem para bikes. Mas meu olhar simplesmente se acostumou a tudo isso – como eu temia, voltei a enxergar sem ver. Alerta vermelho.

Um beijo no Orlando por esse presente de Ano Novo: despertar meu olhar novo de novo. Que a rotina não venha embaçar nem as lindezas nem as mazelas da nossa cidade.

Uma resposta em “Feliz olhar novo

  1. Sou de BH, mineira de nascimento, mas brasiliense de coração, desde 1961, qdo aqui cheguei, recém casada, cheia de sonhos e esperanças. Amo esta cidade. Adotei-a de coração. Reconstruí a minha vida e formei minha família. Sinto tb a tristeza de vê-la relegada a segundo plano, diante das mazelas de que é vítima. Nem é preciso falar aqui do descaso para com a saúde, a educação, o transporte e a segurança, assuntos por demais discutidos e não solucionados. Sinto tristeza de ver, entre outras coisas, as construções inacabadas, (vide a Veja – Brasília, de 08/01/2013), pontes apresentando sérios defeitos, jardins mal cuidados, lixo não recolhido, puxadinhos horizontais e verticais que enfeiam a cidade, prédios já enegrecidos pelo tempo… E tudo isso em pouco mais de 50 anos. A autora tem razão de sentir-se com outro olhar, infelizmente. Uma pena!!!
    Obs: Gosto de ler os textos do blog QUADRADO!

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