O fla-flu

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Todo mundo tem aqueles dias em que está vendo flores pela rua e dias em que se irrita ao ser acordado com o canto dos pássaros. Dias bons e dias ruins. Não cheguei a me irritar com o canto dos pássaros, mas já vou logo avisando: hoje estou num dia ruim. E o motivo é: estou cheia dessas nossas polêmicas vazias.

Os justiceiros contra os defensores dos direitos humanos. Os comunistas contra os reacionários. Os black-blocs contra os defensores da lei e da ordem. Os que curtem BBB contra os que detestam. Os homofóbicos contra as pessoas livres. Até na maternidade, olha que ridículo: mães a favor do parto natural contra mães que tiveram cesariana, mães que amamentam contra mães que alimentam seus bebês com leite artificial.

Tudo na base do exagero, da irracionalidade, do xingamento, da gritaria.

Sobre o tema polêmico aqui do blog, especificamente: nunca, em momento algum, defendemos o barulho, a confusão, a falta de isolamento acústico, a falta de regulamentação sobre horários. Somos a favor de tudo isso. Mas também somos a favor de festas ao ar livre, somos a favor que, em alguns dias do ano (oi, carnaval, te amo) a gente tenha paciência com os foliões. Somos totalmente a favor do respeito ao próximo – inclusive ao próximo bêbado cantando a jardineira. Mas, próximo, por favor, faça xixi no banheiro químico.

Eu estou de saco cheio dos fla-flus por tudo. Uns fla-flus vazios, de argumentos bobocas, de acusações irresponsáveis, de gritos em caixa alta em centenas de comentários. De saco cheio de gente que se arroga o direito de falar em nome de uma sociedade difusa e plural. Que, independente do que tenha lido, responde como se seu interlocutor fosse um radical sem noção – sem perceber que é ele que se transforma num radical sem noção ao fazer isso.

Isso não quer dizer que não queremos discutir, ao contrário: é tudo o que queremos. Adoro quem pensa diferente de mim e, com equilíbrio e bons argumentos, me faz repensar, mudar de ideia, ou pelo menos ampliar meu conhecimento sobre um assunto. Nem sempre é o que vemos.

Bora discutir sério, sem acusações irresponsáveis e radicalismos. Não foi pra isso que a gente veio aqui. E mais: deixe a sua tia do primário orgulhosa e leia o que está escrito – leia de fato o que está escrito. Não o que você quer entender do que está escrito.

Recado dado, amanhã voltamos à nossa alegria habitual.

14 respostas em “O fla-flu

  1. “E mais: deixe a sua tia do primário orgulhosa e leia o que está escrito – leia de fato o que está escrito. Não o que você quer entender do que está escrito.”
    Perfeito!
    O que mais existe é pós-graduado que é analfabeto funcional…

  2. Carol, adoro seus posts. Por acaso vc escrevia uma coluna para o site Candango, muitos anos atrás? É que eu lia essa coluna, escrita por uma também Carol, que tinha um estilo muito parecido com o seu, e adorava. Depois ela se mudou e parou de escrever, e eu tive a impressão de que vc e ela poderiam ser a mesma pessoa…

  3. Costumo dizer que todo mundo que só fala bem ou só fala de algo ou de alguém normalmente não deve ser levada a sério. Tudo tem um lado positivo e um lado negativo. (que nem uma pilha). Resta saber pra qual dos lados têm mais fatores que se adequam ao seu raciocínio.

    Putz, sou muito confuso!!!

    Beijocas!

  4. Os discursos de ódio foram às ruas

    Wanderley Guilherme dos Santos
    Os discursos de ódio foram às ruas

    Wanderley Guilherme dos Santos

    Os Discursos de Ódio designam insultos contra indivíduos e grupos com o objetivo de provocar o ódio contra eles, e eventual violência, simplesmente porque são quem são. Referem-se às discriminações contra raças, religiões, etnias, gêneros e preferências sexuais. No Ocidente, têm sido os negros, os islâmicos, as mulheres, os judeus e os homo-afetivos as vítimas notórias dos discursos de ódio. Existe legislação no Canadá, na Dinamarca, na Nova Zelândia, na Alemanha e na Inglaterra regulando e punindo criminalmente a publicação e difusão de panfletos, livros, jornais, impressos de qualquer natureza que estimule sentimentos e ações destruidoras da dignidade de terceiros.

    Não há coincidência na definição precisa do crime embutido em discursos de ódio nem na extensão e conteúdo das penas. Nos Estados Unidos o debate acadêmico é intenso nos dias atuais, agregando-se às históricas brutalidades contra negros e mulheres os recentes preconceitos e abusos verbais de que tem sido objeto a comunidade islâmica desde a derrubada das torres gêmeas. Uma avaliação dos argumentos contra e a favor de legislação que coíba os discursos de ódio, efetuado por prestigiado jurista pró-legislação, Jeremy Waldron, encontra-se em The harm in hate speech (O dano em discurso de ódio), Harvard University Press, 2012. Sua tradução e circulação ajudariam a entender aspectos emergentes da política brasileira.

    Os discursos de ódio foram introduzidos na retórica brasileira por pelo menos quatro ministros do Supremo Tribunal Federal durante o julgamento da Ação Penal 470: Joaquim Barbosa, Ayres de Brito, Luis Fux e Celso de Melo. Em apartes ou proferindo votos promoveram sucessivos rituais de degradação dos acusados, extravasando os fundamentos legais de seus comentários e juízos. Luis Fux e Celso de Melo excluíram de seus votos e apartes escritos o que deixaram gravado dezenas de vezes perante a televisão e a assistência doméstica do país. Estão, contudo, em vídeo as sessões em que todos se esmeraram no linchamento moral e negação da líquida e certa dignidade a que tem direito qualquer ser humano, mesmo se condenado por esta ou aquela, ou ainda várias vilanias. Não há como contemporizar, no mundo civilizado, com penas que incluam o ostracismo humano. Muito menos com convocatórias sibilinas a manifestações violentas, por palavras e ações, contra acusados, não pelos crimes cometidos, mas porque são quem são. As penas impostas apelaram para fundamentos processualísticos; os discursos de ódio visavam os políticos, em especial os políticos petistas.

    A retórica da política brasileira alterou-se profundamente depois do julgamento da Ação Penal 470. A linguagem dos comentaristas conservadores nos jornais, revistas, rádios e televisão adquiriu desabrida virulência difamatória e desmoralizadora. São despudoradas as manifestações de ódio e ameaças de ativistas radicais contra políticos, em geral, e políticos petistas em particular. Vários já foram insultados e obrigados a se retirar de lugares públicos. E o rebento mais recente daqueles espetáculos de degradação se mostra na facilidade com que a direita radical se apropriou das manifestações de junho, pondo a reboque a classe média e a oposição institucionalizada. A intolerância e ânimo destrutivo paridos por essas manifestações descendem diretamente dos discursos de ódio apadrinhadas por membros de nosso mais elevado tribunal de justiça. Cabe à oposição política democrática repeli-los claramente.

    http://www.ocafezinho.com/2013/07/09/o-odio-ganhou-as-ruas/#more-12198

    • Oi Cristiano!

      Não acho que fechar comentários seja um retrocesso – se você der uma olhada no link que eu postei, vai ver que é uma proposta diferente mas com uma justificativa que passa longe de censura ou coisa parecida. Não é necessariamente adequada a todos os espaços, mas interessante, sem dúvida. A ideia não é calar as pessoas; é simplesmente fazer com que elas pensem mais antes de escrever qualquer coisa. Digitar um comentário num site é fácil, digo qualquer coisa que vier a cabeça, já que o anonimato me protege. Se, no entanto, eu tenho um blog e ponho a minha opinião nele, vou elaborar melhor meu argumento, porque aquele espaço é meu e eu quero mantê-lo limpo e interessante. Até porque se não estiver limpo e interessante, ninguém visita. Essa, aliás, é a premissa do Tumblr, o que é mencionado no link do O Ene que eu pus ali em cima.

      Enfim, essa é minha opinião 🙂 Como eu disse, era só um link para as autoras do Quadrado pensarem a respeito, uma dentre tantas opções de lidar com os comentários desagradáveis.

      (Eu normalmente não estaria comentando aqui, pois na verdade a minha mensagem seria só para você… Mas não tenho seu endereço, então não tenho outra alternativa para responder…)

      Grande abraco!

  5. Tiro, porrada e bomba
    Marcelo Coelho

    As pessoas sensatas são as mais desinteressantes, e do bom senso não se pode esperar grandes novidades

    Vestida de rainha, em seu palácio de Cinderela, a funkeira Valesca Popozuda ameaça com “tiro, porrada e bomba” as inimigas que invejam sua emergência social.

    Foi o tema do artigo que escrevi na semana passada. Mas essa celebração de tudo que é “tiro, porrada e bomba” encontra, infelizmente, outros exemplos no Brasil de hoje.

    Desde que a esquerda abandonou a luta armada, há coisa de quarenta anos, ninguém mais pensava em promover grandes transformações sociais pela violência. Com nuances, um discurso mais simpático a essa atitude, inspirado sem dúvida pelas bizarrices do filósofo Slavoj Zizek, encontra alguns adeptos por aqui.

    Toda essa aproximação, ainda que vaga, com a tática dos “black blocs” não faz mais do que jogar lenha na vasta fogueira inquisitorial da direita.

    Será fácil, como nos anos 1970, associar todo pensamento democratizador, igualitário e timidamente socialista aos “baderneiros”, aos “terroristas”, aos “black blocs” e, por que não, aos “comunistas”. Como se não vivêssemos, no panorama internacional, a verdadeira baderna criada por George Bush, pelos neocons e pelos irresponsáveis do mercado financeiro –sempre aplaudidos pela direita local.

    No horror aos desatinos persecutórios da direita, há quem se confunda. O moderado de esquerda muitas vezes toma as dores dos sectários, dos fanáticos, dos radicais, porque reconhece e abomina a caça às bruxas.

    Mas esses grupinhos violentos de esquerda não têm por que serem vistos como aliados de quem quer mais progresso social. Os “black blocs”, ou seja lá quem for, atrapalham, combatem, inviabilizam esse caminho.

    O progressismo, ao ser moderado, não necessita ser menos firme por causa disso. Rejeita com firmeza a direita do “prende e arrebenta”, assim como rejeita o suposto charme radical do “bota pra quebrar”.

    Reconheço que é uma atitude meio sem graça, que de tanto olhar para os dois lados se imobiliza na inação. Infelizmente, as pessoas sensatas às vezes são as mais desinteressantes, e do bom senso não se pode esperar grandes novidades.

    O mais preocupante é que o vandalismo, de certa forma, interessa a muita gente ao mesmo tempo. Ajuda o campo truculento das forças policiais, que precisam legitimar os excessos em que incorrem, por vício de formação. Ajuda o campo conservador, que pode colocar no mesmo saco toda crítica ao capitalismo e ao autoritarismo de Estado.

    Ajuda, ao mesmo tempo, petistas e antipetistas. Os críticos do PT podem atacar as tentativas de “diálogo” com os “black blocs”. O PT e aliados podem se livrar dos ataques que recebiam durante as manifestações.

    Não se sabe quem são, e em que medida existem, os financiadores do vandalismo. Mas, pela quantidade de forças a quem os vândalos terminaram ajudando, o caixa dessa turma já poderia estar maior do que o do tio Patinhas.

    Curiosamente, produziu-se uma espécie de “anticonsenso”. Durante as manifestações de junho, sempre havia alguém defendendo alguma coisa com a qual milhares de outros podiam concordar. Havia caminho para um grande (não digo que fácil) acordo nacional.

    A situação se inverteu: o caminho está aberto para o desacordo acirrado e completo, em que cada Valesca mostra unhas e dentes para as rivais.

    Caso exemplar desse tom agressivo foi o da comentarista Rachel Sheherazade. Diante da foto do menor de rua amarrado nu a um poste, ela foi longe: é uma reação de “legítima defesa” da sociedade, e a quem se apieda do “marginalzinho”, ela lançou a campanha “adote um bandido!”.

    O seu raciocínio não poderia ser mais típico da mentalidade extremista. Ou você acha certo amarrar um marginalzinho a um poste, ou então você deve adotar o garoto, acolhendo-o em sua própria casa.

    Não há, nesse raciocínio, atitude intermediária. Todo caminho médio é “irrealista”. Ou você mata ou beija. Quem não conhece a típica frase dos torturadores, segundo a qual você “não trata bandidos com luvas de pelica”? É nessa mentalidade, mas do lado oposto, que Joaquim Barbosa vira “torturador” e que José Dirceu vira “preso político”.

    De onde vem tanto extremismo? Há uma “policialização” do ambiente, irrompendo através da nossa película mais civilizada.

    Afinal, no mundo da classe baixa, correm soltas as divisões: quem não está com o traficante está com a polícia, quem não é evangélico fundamentalista está entregue a Satanás. Suba um andar nesse barraco: quem é contra o PT é golpista, e quem é de esquerda apoia Pol Pot e Fidel.

    Quem não está comigo é meu inimigo, e, como diria Valesca Popozuda, merece “tiro, porrada e bomba”. O castelo encantado dessa rainha é o favelão da nossa atual miséria ideológica.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/152838-tiro-porrada-e-bomba.shtml

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