Eu te desafio a me amar

expo

A exposição que será aberta hoje, no Museu da República, já começa a valer pelo título. Só essa frase conseguiu me provocar o que toda arte sensível tem por objetivo: uma pausa e vários pensamentos. “Eu te desafio a me amar”.

A exposição fotográfica de Diana Blok, artista uruguaia/holandesa, retrata personalidades, famílias e militantes LGBT. O foco é a identidade sexual, a diversidade das relações afetivas, o diferente.

Olhando algumas fotos da exposição, me perguntei quem seria o diferente dessa história, eles ou eu. Imaginei que o espectador, neste caso, é personagem tão importante quanto o fotografado. Porque é fundamental que, ao olhar a foto do diferente, eu pense não só na complexidade da existência daquela pessoa, mas me dedique a perceber as minhas próprias complicações – o que eu penso quando vejo essa foto? Por que eu penso?

“Eu te desafio a me amar” é uma clara provocação. Mas uma provocação que vem com dor: a percepção de que é improvável ser amado. A frase está tatuada no braço de Marcelo Caetano, 25 anos, transexual que fez a transição do feminino para o masculino e foi o primeiro aluno da UnB a ter o direito de usar o nome social.

Marcelo é um dos retratados na exposição, promovida pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Ong que atua há mais de 30 anos na área dos direitos humanos. O objetivo é estimular o debate sobre os direitos da população LGBT.

A exposição já passou pelo Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, onde vivem parte dos fotografados, e chega agora a Brasília, onde fica até o dia 30 no Museu da República. Depois parte para a Cidade Estrutural.

Nas fotos, anônimos se misturam com rostos conhecidos, como Ney Matogrosso, Ellen Oleria e o deputado Jean Wyllys. Mas são os rostos dos corajosos desconhecidos que atraem mais o meu olhar. A vida de Marcelo Caetano é uma prova doída de como somos pequenos, limitados e insignificantes.

Somos tudo isso enquanto não entendermos que a diferença é absurdamente natural, e é o que faz deste mundo mais bonito, menos tedioso. Sou pequena, limitada e insignificante quando crio limites ao aceitável: pode ser diferente, desde que esteja dentro dos meus padrões estéticos, culturais, de classe, de feminilidade ou masculinidade.

Pode ser diferente, mas ei: não seja muito diferente, por favor, isso me incomoda. Você me incomoda. O seu amor me incomoda. É essa a mensagem que Marcelo e tantos outros recebem todo santo dia. Imagine, por alguns segundos apenas, ser essa pessoa, que recebe essa mensagem diária. Deixe-se desafiar.

Bora?
Exposição fotográfica – Eu te desafio a me amar
Museu da República
Abertura hoje, 20 horas, com performance de Rafucko e Tatiana Lionço
Visitação até 30/05 – terça a domingo, das 9h às 18h30. Entrada franca.

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