Alto Paraíso, bairro de Brasília

Zé1


Texto de Lara Haje, especialmente para o Quadrado ❤
Fotos de José Maria Palmieri

Se você acha que a política está dureza, para quem trabalha com isso está pior ainda, acredite. Mas eu sou do tipo que acha que um refúgio no mato resolve muitas coisas nesta vida. Foi assim que comecei a me comportar como se Alto Paraíso, Goiás, fosse um bairro de Brasília. Nos fins de semana, meu destino poderia ser uma casa em um dos condomínios nos arredores da cidade, mas escolhi a Chapada dos Veadeiros como lugar no mundo para chamar de meu.

No sábado logo cedo, cato duas mudas de roupa e sigo em busca de autocura para as neuroses inventadas na cidade grande e, sobretudo, de desconexão. Porque durante a semana são pelo menos oito horas por dia na frente do computador ou do smartphone. E a gente começa a se comportar como se a vida fosse o que vemos ali. Perdemos a dimensão do nosso tamanho e importância: pequenos. Na Chapada dos Veadeiros, dou o restart.

Para começar, duas horas e meia na estrada só ouvindo música: já considero isso um descanso. No caminho, já vou com água na boca para comer meu sanduíche preferido no mundo, o Sanduflor do Cravo e Canela. Peça com hambúrguer de grão de bico (ou de acarajé, se for chegado numa pimenta) e com mandiopiry – a maionese de alho à base de mandioca. Lá também tem vários sucos de frutas da região e um açaí delicioso.

De tarde, um banho em uma das cachoeiras mais acessíveis e próximas, como Loquinhas, São Bento, Almecegas e Cristal, já faz o dia valer a pena. Na Cristal, não deixa de finalizar a tarde com um pastel. Outras opções de lanche no fim do dia estão na Tapiocaria maravilhosa da praça principal da cidade. Além da tapioca, as sopas e o bolo de cenoura também valem a pena.

Se preferir esperar o jantar, sugiro a pizza na mão da Vila Chamego, onde até a de brócolis é gostosa. Mais chiquezinho (e mais caro, mas vale a pena) é o Jambalaya, restaurante à la carte com opções de peixe, carnes, saladas, risotos. Além de tudo ser uma delícia, o ambiente tem luz difusa e almofadas aconchegantes.

Para dormir, as opções são variadas, dependendo do gosto e de quanto se quer gastar. Para quem quer o mesmo conforto da cidade grande, tem, por exemplo, a Casa da Lua  e as Casas Gengibre (a Dani já falou delas aqui), a uma média de R$ 400 a noite. Para quem quer uma opção mais em conta (média de R$ 120 a diária para casal), ou para quem prefere lugares mais no meio do mato, mesmo que tenham menos conforto, tem as pousadas Casa Rosa, do Sol e Caminho de Santiago.

Elas têm mais cara de casa do interior, mas oferecem o benefício do silêncio absoluto e de um encontro fortuito com araras. Neste quesito – “melhor encontro com araras” –, a Pousada do Sol é imbatível. Mas o café da manhã deixa um pouco a desejar. Nesta época de chuvas, espere um cheirinho de mofo nesses lugares. Mas tenho a tendência a achar que um pouco de desconforto às vezes é até bom: lembra o quão privilegiados somos.

Nestas pousadas, o wi-fi muitas vezes vai funcionar de forma precária. O que considero um benefício imenso. Talvez você até se sinta inclinado a ler um livro, veja bem. Há quanto tempo mesmo não se dedica a isso? E talvez descubra que facilmente lê 60 páginas seguidas sem o seu smartphone ou computador por perto.

Depois de tudo isso, é possível que ainda seja 9 da noite. Porque sem internet e TV, o tempo passa de outra maneira: lentamente. Maravilhosamente lentamente. Não haverá compromissos, o que te possibilitará dormir 10 horas no mínimo nesta noite.

Zé2

Segundo dia
No domingo, mais um banho de cachoeira. Perto de Alto, adoro Anjos e Arcanjos, só 1 km caminhando, mas com subidas e pedras que deixam o trajeto com dificuldade média. Há muitas outras possibilidades, um mundo a se descobrir. Sertão Zen, Cachoeiras dos Couros e Macacos estão na minha lista para os dias que tiver ânimo para uma caminhada mais longa. Mas às vezes fico meio preguiçosa no domingo de manhã.

Para o almoço de domingo, descobri recentemente o Alquimia, self-service vegetariano com as mesmas cozinheiras do Oca Lila (que fechou e deixou saudades). Para quem faz questão de algum tipo de carne, tem o Tapindaré, que fica numa construção horrorosa (a humanidade perdeu muito quando o blindex deixou os boxes dos banheiros e foi transportado para portas e janelas), mas oferece um self-service com muitas opções bem feitas. No caminho de volta, tem quem considere indispensável um café no Portuga.

O mesmo fim de semana em São Jorge, também na Chapada, terá mil outras possibilidades. E Cavalcante então é outra história, que um dia eu conto por aqui.

De volta a Brasília, às 18h, depois de menos de 40 horas fora da cidade, fica a impressão de ter vivido realmente uma experiência à parte do meu mundinho – conectado demais, virtual demais, veloz demais. A informação é essencial e, em tempos de comunicação por “memes”, assimilar quilos de informações diversas me parece mais importante ainda. Mas é preciso tempo para digeri-las, distanciamento, contato com outras realidades, não mediadas. É precisa temperar informação, inclusive a informação do entretenimento, com poesia e espaço para a criatividade. Como outro dia me alertou o filósofo Edgar Morin, se você busca momentos poéticos acaba esbarrando na felicidade.

6 respostas em “Alto Paraíso, bairro de Brasília

  1. Que delícia, Lara!!! Costumo ficar em São Jorge, mas minha parada obrigatória na volta (além do portuga, claro) é o restaurante de uma figura incrível chamada Vera, o Zu’s Bistrô. Comida italiana de primeira, a preço super justo, servida na varanda da casa, com direito a um papo ótimo com a dona. Vale muito a pena conhecer, inclua na sua lista! 😉

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