Todo mundo vivo?

Ultra-Romântico (foto 3 de Tico Fonseca)

Agora que o ano começou de verdade, a humanidade se divide em duas: metade está inconformada com o fim do carnaval, querendo inventar qualquer desculpa pra dar a última sambadinha, metade virou a página e quer pensar em outra coisa.

Se você quer dar a última sambadinha, a boa notícia é a roda de samba Já Chegou Quem Faltava que acontece domingo de tarde no Círculo Operário do Cruzeiro.

Pra virar a página e pensar em outra coisa, te sugiro ComCiência, a exposição incrível do CCBB que mexe com nossa ternura e nossos medos do desconhecido.

Agora pra ficar exatamente no meio do caminho, te trago uma notícia bombástica: a peça Ultra-Romântico, que chacoalhou minhas estruturas na primeira edição, em 2012, volta este final de semana ao subsolo do Conic, e desta vez muito melhor.

Você se lembra: com esta peça, o Grupo Liquidificador embaralha as fronteiras entre a linguagem mais contemporânea e o texto arcaico de “Noite na taverna”, do ultra-romântico Álvares de Azevedo, do início do século passado. Mistura teatro com festa, programa cultural com balada – e imprime na gente, bem no meio do peito da gente, toda a intensidade de um teatro explícito e rasgado. Você entra e vira a peça. Não tem jeito de ficar indiferente.

Essa edição da peça promete ainda umas novidades bem novidentas: a peça agora tem um aplicativo que te permite baixar as músicas que aparecem em cena e um zine online que será divulgado em capítulos. Além disso, cada dia de espetáculo conta com a presença de um grupo da cidade – teatral, de música ou de performances – numa iniciativa linda de interagir e fortalecer a cena artística da cidade como um todo.

Ah! Precisa lembrar que tem festa depois? É uma peça que vira festa. E festa daquelas.

Tá vindo embalado do carnaval mas quer fazer algo bem diferentão amanhã de noite? Então a gente se encontra lá.

Bora?
Já Chegou Quem Faltava – roda de samba
Domingo, 16h
Círculo Operário do Cruzeiro

ComCiência
Até 4 de abril, de quarta a segunda, das 9h às 21h
CCBB
SCES, Trecho 02, lote 22
3108-7600

Ultra-Romântico
Peça, balada, aplicativo, show e amor
Amanhã (13/02), 27/02, 12/03 e 26/03
Teatro Dulcina de Moraes
SDS, Bloco C – Conic
$10 (meia) e $20 (inteira)

Talvez eu seja o último ultra-romântico

ultraromantico

Eu não gosto de filme que já na primeira cena eu adivinho o fim. Eu não gosto de música que eu adivinho a rima. Eu não gosto de quadro meramente figurativo – assim como não gosto de arte abstrata que não me diz nada. E principalmente eu não gosto de festa batida – dessas que tem todo final de semana, com as mesmas músicas, com a mesma galera, com o mesmo leiaute.

Deve ser por isso que eu gostei tanto da peça Ultra-romântico, do grupo Liquidificador. Porque na hora que abriram as portas do subsolo do Conic (ah, sim: começa que a peça era no subsolo do Conic) eu não tinha a menor ideia do que me esperava. Só isso já era bom – mas tinha mais.

A peça me deu de presente a constatação do eterno giro da roda do tempo, colocando a transgressão punk, underground e pós-moderna na perspectiva antiguinha e ingênua dos ultra-românticos. Ou seja: foi lindo. Trash, difícil, esquisito – mas (ou talvez por isso mesmo) lindo.

Por isso que venho aqui passar o chapéu, senhoras e senhores. O Ultra-romântico quer voltar ao subsolo do Conic este ano – e dessa vez, olha a ousadia, sem nenhum apoio de dinheiro público. Uma nova temporada totalmente financiada pelo público – que oferece de brinde para a cidade uma temporada de festas punks bem diferentes daquelas que você já enjoou de ir toda sexta-feira.

O catarse Ultra-romântico já está rolando, pelos próximos trinta dias. Nas contrapartidas pros colaboradores tem ingresso pra festa, camisetas e até a possibilidade de patrocínio de empresas.

Uma trupe pra lá de talentosa, gente se virando nos trinta pra conseguir grana, estética punk, um material de divulgação que é a cara dos zines que eu lia na adolescência, além da oportunidade de ouro de ter uma temporada toda de festinhas underground pra curtir: motivo de sobra pra você clicar aqui e ajudar a nova temporada do Utra-romântico a virar realidade.

Teatro para corações fortes

“Ultra-romântico”, a peça do grupo Liquidificador que está em cartaz no subsolo do Conic, não é para principiantes.

Baseado no livro “Noite na taverna”, de Álvares de Azevedo, a peça propõe uma releitura moderna, punk e revolucionária daqueles valores intensos todos que a gente se lembra vagamente de ter aprendido quando estudava a segunda fase do Romantismo, lá nos idos do segundo grau. A escola de morrer cedo, lembra?, também chamada de ultra-romântica. Vem daí o nome da peça.

Viver o momento, a paixão, a intensidade romântica que flerta sempre com o limite da morte, com o proibido – tudo isso temperado pelo hedonismo das longas e lascivas noites passadas nas tavernas. Só que o ultra-romantismo brasiliense é ultra-contemporâneo, ambientado em uma noitada underground com punks, música eletrônica, drogas, bebidas baratas e uma proximidade quase real da marginalidade urbana.

Esta fronteira, aliás – o que é teatro?, o que é real? – foi para mim uma das muitas experiências bem-sucedidas da peça. É você que entra em cena, e não os atores – e eles estão sempre muito perto, transformando você de público em testemunha, em quase cúmplice. A tal ponto que, depois da encenação dos sábados, a peça se transforma em festa e de repente estamos todos curtindo juntos – e nada parece mais natural.

Porque é bem fácil sentir-se num inferninho de verdade estando numa peça-festa no Conic, com baratas (bem reais) que esbarram nos pés dos atores, a música, as luzes, o ritmo de muitas das nossas baladas contemporâneas. Tempere-se tudo isso com um pouco de marginalidade, crack e os amores letais que costumam surgir desta mistura e, quem diria?, a escola de morrer cedo fica tão contemporânea.

Com música e vídeo produzidos no calor das emoções, além de um elenco talentoso e completamente entregue ao enredo, a peça testa muitos outros limites: o antigo e o moderno, o cool e o brega, o amor e o ódio, a vida e a morte, o medo e a sedução, a fronteira entre os gêneros.

Almas sensíveis, abster-se. Para todos os outros, é a oportunidade de ver teatro de verdade, forte, underground e desavergonhadamente brasiliense.

Bora?
Já fui e, se bobear, vou de novo.
Sextas, sábados e domingos até 4 de novembro de 2012
Subsolo do Conic (entrada pelos fundos, ao lado das lojas de doces)
Sextas e sábados, às 21h, e domingo, às 20h
R$ 20, 00 (inteira)/ R$ 10,00 (meia)
O site da peça é por aqui.