Espetáculo, porque “show” é nome de espantar galinha

ariano

Faz coisa de quinze anos, mas guardo ainda num lugar especial do coração a aula-espetáculo que assisti do Ariano Suassuna quando estava na faculdade. Lembro de ouvi-lo como quem ouve um avô transmitir sua sabedoria alegre, seu jeito positivo de ver a vida, seu olhar generoso para o Brasil.

Hoje, Suassuna está de volta a Brasília para mais uma de suas aulas-espetáculo. Espetáculo, hein?, não vai chamar de show, que show, pra este brasilianista que rejeita a globalização e valoriza tudo o que é autenticamente brasileiro, é palavra de espantar galinha.

Quero muito estar lá na plateia e ouvir o que ele tem a dizer sobre este momento único da história do país. Para quem se interessar em ir mais fundo na obra do autor de O Auto da Compadecida, a Caixa Cultural Brasília promove um ciclo de filmes baseados na obra de Suassuna e documentários sobre o escritor. No foyer da sala Villa Lobos acontece também uma exposição de fotos sobre ele.

Bora?
Aula-espetáculo de Ariano Suassuna
Hoje, às 20h
Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional
Entrada franca, por ordem de chegada (sujeito à lotação da Sala Villa-Lobos)

Exposição de fotos de Alexandre Nóbrega
Foyer da Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional
De amanhã a 10 de julho, das 9h às 21h
Entrada franca

Ciclo de filmes sobre Ariano Suassuna e sua obra
Caixa Cultural Brasília
SBS, Quadra 4, Lotes 3/4, edifício anexo à matriz da Caixa
De 29 e 30 de junho e 6 e 7 de julho

Nosso vandalismo dói mais que o dos outros

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Uma das análises de que mais gosto diz que as passeatas vêm lembrar que os políticos têm um chefe e esse chefe é o povo. Em outro canto, já não lembro onde, li alguém defendendo, e isso se afina com a linha de raciocínio do Bucci, que sem os episódios de violência, o recado não teria, não, sido o mesmo. Só levantando cartazes talvez o recado não fosse tão claro. Sem falar no outro argumento, mais popular e fácil, de que vandalismo de verdade são as condições da educação e da saúde no Brasil.

Ouço tudo isso. Concordo em algum nível com tudo isso.

Mas não posso deixar de dizer que, para uma brasiliense como eu, o vandalismo dos prédios públicos dói. Daqui de onde estou, graças a uma educação burguesa e também graças à sensibilidade que tem quem aprendeu a amar a própria terra, cada pedra jogada contra o prédio do Itamaraty na quinta-feira passada doeu fisicamente, bem aqui, no meio do meu peito.

Não quero cobrar das massas, a fórceps, a despeito da educação que o Estado não garantiu a elas, a consciência do que representam os prédios de Niemeyer, as obras de Portinari, Athos Bulcão, Alfredo Volpi que estão lá dentro, acessíveis ao público. Não se pode cobrar isso, especialmente não dos muito jovens, nem dos radicais que o Marcos Dantas tão bem descreve, camada da população difícil de prever e fácil de manipular.

Mas posso – e devo – pedir: não machuquem nossos prédios públicos. Eles contam a história da nossa cidade. Eles testemunham a construção da Brasília. Eles são nosso patrimônio. São gigantescas obras de arte – e sem eles, Brasília não é Brasília.

Precisamos mesmo estar nas ruas. Precisamos mesmo ocupar o espaço que ocupamos. Endureçamos – mas sem perder a ternura.

* Foto roubada da internet, se for sua e você não quiser vê-la publicada aqui, nos mande um email.

Memória e luta

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O movimento não é novo: toda última sexta-feira do mês, o pessoal da bicicletada se reúne para reivindicar uma cidade mais humana, mais ciclista e menos automotiva. Mas hoje acontece uma edição extra, que tem mais do que luta na pauta: tem um dever de memória, uma homenagem à Carol Scartezini.

Um motivo a mais para a gente se reunir, pedalar e continuar construindo a cidade, o país, o mundo em que a gente acredita.

Bora?
Bicicletada
Hoje, às 19h
Museu da República

Nem uma palavra sobre manifestação

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Então. Sabe da maior? A partir de hoje acontece o Primeiro Festival da Seca, uma iniciativa da loja de vinis Dom Pedro. Tem gente do Criolina, djs da própria loja, oficina de lomo, de tudo e mais um pouco. Uma iniciativa linda de ficar ao ar livre, ver gente legal, ouvir um som e conversar – que a gente tá precisando.

Mais iniciativas bacanas do findi: no Mercado Cobogó tem encontro de ilustradores, onde alguns dos grandes desenhistas de Brasilia – inclusive a fofa da Luda – vão, adivinha?, desenhar, mostrar o processo criativo deles e vender peças.

No Objeto Encontrado, mais uma Feira 102. Na sua oitava edição, a ideia é a mesma: aproximar as pessoas dos artistas, vender arte a preços acessíveis. Tem Coletivo Transverso, Michelle Cunha, Revista Samba, Sem/Registro… Bão demais.

Vamos se ver? A gente tem muito papo pra botar em dia.

Bora?
Primeiro Festival da Seca
De hoje a domingo, a partir das 13h
Ao redor da Dom Pedro Discos
CLN 412 bloco C loja 20

Encontro de ilustradores no Mercado Cobogó
Amanhã, das 10h às 19h
SCRN 704/705, Bloco E, lojas 51/56
3039-6333

Feira 102 no Objeto Encontrado
Amanhã, das 15h as 21h
SCLN 102 Norte, Bloco B, Loja 56
3326-3504

Foto: @wiktorsk

Passar pra frente as boas notícias

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E essa linda notícia que a Nahima trouxe no Correio Braziliense de ontem: o Fora do Eixo, coletivo dos coletivos, se instala em Brasília a partir desta semana, em um lugar só deles chamado Casa das Redes, na 703 Norte.

O Fora do Eixo une coletivos culturais do Brasil todo, e foi batizado com este nome porque nasceu do desejo de troca de experiências e informações de grupos vindos em cidades distantes do eixo cultural tradicional. Uma história linda que já conta sete anos de organização, articulação e resultados.

Aqui em Brasília, a Casa das Redes vai distribuir o que é produzido pelos coletivos representados pela Fora do Eixo e albergar a galera que vem à cidade, seja para trazer seu trabalho, seja para articular os caminhos das pedras de quem produz arte no Brasil.

Eles chegam com um encontro que parece lindo, que me deu muita vontade de conhecer e de fazer parte – e que acontece até hoje lá na própria Casa.

Bora?
Encontro de Redes, na Casa das Redes
Até hoje. Programação completa aqui.
SHIGN 703, Bloco O, Casa 38.
32646131

Uma morte como símbolo

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As estatísticas da manifestação de segunda-feira não contam ocorrências expressivas. Duas detenções por desacato… Só. Mas houve uma ocorrência grave, no entanto. Houve uma morte, diretamente ligada à manifestação de segunda-feira.

Carol Scartezini Battisti, uma moça de 23 anos morreu depois de ser atropelada quando ia de bike se juntar à manifestação. Uma mocinha que até sexta-feira passada estava no facebook compartilhando notícias sobre as manifestações de São Paulo morreu porque vivia como acreditava. Ela andava de bicicleta. Ela se locomovia de bicicleta.

Na cidade onde ela queria viver, isso seria possível. Os amigos contam que ela foi de bike porque não queria pegar trânsito. No sábado, ela foi de bicicleta para a frente do Mané Garrincha. Para ela, manifestar não se tratava de pegar seu carrinho, estacionar num lugar seguro, escrever palavras de ordem num cartaz e gritar meia dúzia de palavras. Ela vivia como ela acreditava: ela ia para as manifestações, e ia de bike. E ela morreu. Dá para pensar em alguma coisa mais trágica e mais simbólica?

Sim, foi uma fatalidade. A culpa provavelmente nem foi da pessoa que a atropelou – que aparentemente prestou socorro. A culpa é do sistema: que reduz o IPI dos carros, cria carros demais, detona o transporte público, exclui quem não se conforma.

Se é preciso de foco no movimento, aí está o foco: no mundo que queremos construir, as pessoas não morrem andando de bicicleta. 

Para se perguntar mais

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Confesso: estou até meio assim de falar com vocês de outra coisa. O planeta continua sua órbita, descobri um lugar incrível para comer quindins, tem uns shows bacanas rolando no final de semana, mas… depois de tudo isso, as coisas precisam de um novo contexto para valer, não acham? Vamos ficar aqui falando de quindins, enquanto o mundo muda lá fora?

A má notícia é que não cheguei a nenhuma conclusão brilhante desde segunda-feira. O mais perto que consegui encontrar de um consolo para isso veio da nossa leitora Cristina, nos comentários: quem não está confuso não está devidamente informado.

A boa é que, sem nenhuma pretensão de chegar a conclusões precisas, estou com fome e sede de saber mais sobre tudo isso. Mas não estou falando dos colunistas dos jornalões que mudam de opinião ao sabor do vento – nem muito menos dos 200 milhões de analistas políticos nascidos de ontem pra hoje no meu facebook.

Por sorte nossa, aquele festival de que falamos na semana passada tem uma mostra especial sobre os movimentos revolucionários recentes, e sobre esses acontecimentos indefiníveis todos. Vamos ficar de olho no Ocupa Wall Street – Ação Colaborativa, documentário coletivo de 99 cineastas norte-americanos, com sessões de amanhã a domingo, em horários variados. Outros filmes também podem valer a reflexão.

Ler, conversar com gente que pensa diferente da gente, fazer perguntas, se empolgar sem se deixar levar pela emoção fácil. Aproveitar a grande oportunidade para ir mais longe do que apenas mostrar ao mundo o quanto a gente fica lindo protestando.

Bora?
Festival Biff – Mostra Krisis
Sessões no Cine Cultura Liberty Mall
Programação completa do festival aqui.